Amália é também o nome de um modelo de linguagem português que o Estado quer colocar ao serviço da língua soberana, da Administração e do conhecimento. A Resolução do Conselho de Ministros n.º 178/2026, de 15 de setembro, constitui o reconhecimento do Governo português de que quem não domina os instrumentos com que se produz, organiza e interpreta a informação, ficará dependente de modelos concebidos noutros países, treinados noutras culturas e submetidos a prioridades que não são necessariamente as nossas.
Um modelo de linguagem (LLM) não é apenas um chatbot que responde a perguntas. É uma infraestrutura de linguagem que aprende padrões, reconhece relações, resume documentos, produz texto e pode ser integrado em serviços públicos, escolas, museus, meios de comunicação e centros de investigação. Esta Amália foi pensada nesse horizonte. O projeto apresenta-se como aberto e público, orientado para o português europeu, para a preservação de referências culturais nacionais e para a possibilidade de tratar dados sensíveis sem os retirar do território nacional.
A língua portuguesa é a tradução viva do povo que a utiliza para comunicar. Traduz uma forma de pensar e de viver. Um modelo que incorpora e compreende o português europeu, os seus registos, expressões e referências, não substitui os modelos estrangeiros, mas reduz a dependência deles. Permite adaptar a tecnologia às instituições, em vez de obrigar as instituições a adaptarem-se às limitações da tecnologia.
Contudo, a soberania tecnológica não se proclama apenas por resolução governamental. Um modelo nacional de linguagem só terá utilidade pública se for competente, auditável, transparente quan- to aos dados de treino, sujeito a avaliações independentes e acompanhado por regras claras de responsabilidade.
É neste ponto que a Justiça soberana surge como uma das aplicações possíveis mais relevantes. Tribunais e demais entidades da Justiça trabalham com informação altamente sensível: processos, depoimentos, dados pessoais, decisões e estratégias processuais. Uma LLM portuguesa, instalada sob controlo institucional do Estado português e com garantias de segurança, poderia apoiar a pesquisa legislativa e jurisprudencial, a organização de processos, a tradução e a preparação de informação para cidadãos e profissionais. Poderia fazê-lo respeitando o português jurídico e sem entregar dados judiciais a plataformas estrangeiras.
Na Justiça, a Amália não pode ser o juiz invisível ou o procurador sem rosto. A decisão jurisdicional exige competência, contraditório, fundamentação e responsabilidade humana. A Inteligência Artificial pode acelerar tarefas, mas não pode substituir a independência dos tribunais, nem transformar uma probabilidade estatística numa verdade do processo. A soberania também significa conservar o direito de saber como uma resposta foi produzida e para onde foram enviados os dados fornecidos.
Portugal não parte do zero. Além da Amália, existe também o Evaristo, outra iniciativa portuguesa dedicada à língua e à experimentação com modelos de linguagem. A plataforma apresenta-se como um chatbot multimodelo e multi-heterónimo e disponibiliza, entre outras opções, uma LLM local, de seu nome Gervásio 8B PTPT. A coexistência destas experiências é saudável. O Estado não deve confundir uma política nacional com o monopólio de uma solução. Deve criar condições para que projetos públicos, académicos e privados possam testar, comparar e melhorar modelos portugueses.
O Estado deve garantir futuro à Amália e ao Evaristo e a outros projetos sérios de IA que surjam a nível nacional, que visem garantir a existência de LLMs soberanos. O desafio é grande: garantir computação, dados de qualidade, talento, avaliação permanente e utilizadores reais. Sobretudo, integrar a ferramenta no quotidiano das instituições sem esconder os seus limites atrás das palavras mágicas do momento: “Inteligência artificial”. Amália é uma boa notícia. Não porque Portugal tenha inventado uma máquina que sabe tudo, mas porque começa a perceber que um modelo de linguagem também é matéria de soberania.