Portugal precisa de mais cidades médias

João Teixeira Leite

Presidente da Câmara Municipal de Santarém

Publicado a: 

Durante demasiado tempo, Portugal habituou-se à ideia de que as maiores oportunidades tinham de estar concentradas em Lisboa e no Porto. Emprego qualificado, investimento, universidades, serviços diferenciados e infraestruturas foram reforçando essa concentração.

Não se trata de diminuir a importância das nossas duas áreas metropolitanas. Lisboa e Porto são fundamentais para a competitividade do país. A questão é outra: Portugal precisa de mais cidades fortes.

Cidades onde uma família possa encontrar emprego, habitação compatível com os seus rendimentos, boas escolas, ensino superior, saúde, cultura, segurança e qualidade de vida.

Podemos, e devemos, construir mais casas. Mas dificilmente resolveremos o problema da habitação se continuarmos a concentrar população, emprego e investimento nos mesmos territórios. A política de habitação também tem de ser uma política de desenvolvimento territorial.

Criar novas centralidades significa aproximar emprego das pessoas, investir na ferrovia e nos transportes públicos, reforçar o ensino superior fora das áreas metropolitanas e criar condições para atrair investimento privado, inovação e emprego qualificado.

Mas exige também uma mudança na política pública nacional. Se queremos um país mais equilibrado, o investimento público também tem de ajudar a equilibrá-lo.

O Governo, através do ministro Manuel Castro Almeida, está a preparar a criação de seis grandes áreas de acolhimento empresarial destinadas a receber grandes investimentos. É uma decisão relevante e uma oportunidade para fazer verdadeira política de coesão territorial.

Quando o Estado decide onde localizar infraestruturas desta dimensão, não está apenas a escolher terrenos. Está a influenciar onde serão criados empregos, onde se instalarão empresas e onde surgirão novas oportunidades económicas.

Por isso, a política pública deve perguntar-se onde o seu investimento produz maior adicionalidade: se reforçando territórios que já vão beneficiar de milhares de milhões de euros de investimento público e privado, como acontecerá em torno do futuro aeroporto, ou criando novas âncoras económicas, capazes de gerar desenvolvimento com impacto relevante em diversos territórios?

Não se trata de retirar investimento a uns para o entregar a outros. Trata-se de perceber que a coesão territorial também se faz através das escolhas de investimento do Estado.

É aqui que as cidades médias podem assumir um papel decisivo. Cidades com escala, serviços, conhecimento, acessibilidades e qualidade de vida para captar empresas, talento e famílias.

Portugal é demasiado pequeno para aceitar que a geografia determine as oportunidades de cada cidadão.

Não precisamos de enfraquecer Lisboa ou o Porto. Precisamos de multiplicar oportunidades pelo território.

Um país equilibrado não é aquele onde todos têm de partir para encontrar futuro. É aquele onde existem vários centros capazes de o oferecer. Portugal precisa de mais cidades médias.

Diário de Notícias
www.dn.pt