A fabricante sueca Saab está a mobilizar argumentos de peso para convencer Portugal a optar pelos caças Gripen em detrimento dos F-35 norte-americanos. Como detalhamos na edição desta sexta-feira do Dinheiro Vivo, a empresa sublinha que o seu avião é mais barato, mais simples de operar e mais flexível do que a concorrência. E acrescenta um trunfo político-industrial: parte das 27 aeronaves a adquirir poderia ser produzida em território nacional. O Made in Sweden transformar-se-ia, assim, num Made with Sweden.Os números ajudam a perceber a dimensão da escolha que se coloca para substituir os “velhos” F-16. Cada Gripen rondará os 100 milhões de euros, o que colocaria o pacote total perto dos 2,7 mil milhões. Já o programa F-35 poderá atingir 5,5 mil milhões, segundo estimativas divulgadas publicamente. A diferença não se esgota no preço de aquisição: o custo de operação dos aparelhos suecos é apontado como cerca de um terço do dos F-35 e também inferior ao dos Rafale franceses..Estes argumentos não passarão despercebidos à Força Aérea nem ao Governo. Mas a decisão não se resume à compra de equipamento militar dispendioso. Na verdade, é provável que o custo e a eficácia operacional não sejam os fatores determinantes, por mais que figurem nos documentos oficiais. O que está verdadeiramente em causa não é a utilização dos aviões num eventual teatro de guerra distante, onde o contributo português seria sempre limitado. O que está em jogo é uma escolha estratégica que acompanha Portugal ao longo da sua História: alinhar com a potência marítima dominante ou aprofundar a integração no bloco continental europeu.Durante oito décadas, essa tensão histórica ficou adormecida. A hegemonia norte-americana no pós-guerra permitiu a Portugal ser simultaneamente atlântico e europeu. A pertença à NATO garantiu segurança; a integração europeia assegurou modernização e prosperidade. O país beneficiou dessa confluência rara entre interesses americanos e europeus.."Numa altura em que assistimos a um momento de fricção séria nas relações transatlânticas, Portugal tentará manter um delicado equilíbrio entre a aliança com a potência marítima dominante e a pertença à UE.”.Hoje, porém, o contexto mudou. Não estamos perante uma situação como a de 1806, quando Napoleão tentou forçar a rutura com a Grã-Bretanha, mas vivemos um momento de fricção séria nas relações transatlânticas. Portugal já não tem um império colonial a defender, mas continua a ser uma pequena economia aberta e um país de vocação marítima. E não podemos ignorar que os EUA mantêm uma base militar numa das nossas ilhas atlânticas - que Portugal conseguiria defender tão bem quanto a pequena Dinamarca protegeria a imensa Gronelândia. Perante esta realidade, o interesse nacional tenderá a privilegiar a preservação da relação com os EUA, sem abdicar das vantagens de pertencer à União Europeia. É este delicado equilíbrio que o Governo liderado por Luís Montenegro terá de gerir, como outros governantes portugueses, de diferentes regimes políticos, tantas vezes fizeram no passado.É por isso que, na escolha entre F-35, Rafale e Gripen, os critérios geoestratégicos - eventualmente informais, mas decisivos - poderão pesar tanto ou mais do que as considerações técnicas ou financeiras. A decisão será menos sobre aviões e mais sobre o lugar do país no mundo.