A Administração Trump adotou uma retórica assente no pressuposto de um mundo dividido em esferas de influência, fazendo renascer a “Doutrina Monroe” e reiterando a sua pretensão de controlo sobre as Américas.A posição oficial da China sobre “esferas de influência” é conhecida, consistente e tem sido reiterada em documentos estratégicos chineses e na sua ação diplomática. Enquanto potências tradicionais (como os EUA e a antiga URSS) historicamente dividiram o mundo em blocos de lealdade, a China argumenta que esse modelo é arcaico e contraproducente.A China tem preocupações com potências estrangeiras atuando em redor do seu território e quer aumentar o seu poder global. No entanto, é um erro pensar que a China partilha a visão de um mundo dividido em esferas de influência. É bem possível, se não provável, que se oponha ferozmente a tal. Vejamos porquê.1. Fim do marxismo-leninismoEmbora ainda exista uma mão-cheia de países com regimes totalitários assentes na suposta “ditadura do proletariado” – R. P. China, Vietname, Laos, Coreia do Norte, Cuba –, a verdade é que o marxismo-leninismo, como ideologia agregadora de um enorme bloco ideológico alternativo ao sistema capitalista, morreu com a queda da União Soviética e a transformação dos países dela emergentes em economias de mercado.No caso da R. P. China, apesar do planeamento central, o sistema económico assenta numa economia de mercado com um setor privado cada vez mais relevante, e o regime político tem tido uma progressiva evolução para um Estado confucionista leninista, com um reforço do nacionalismo e um gradual retorno ao confucionismo (e ao legalismo), em que o confucionismo serve para reforçar a sinização do marxismo, embora subordinado ao reforço da legitimidade do PCC como putativo detentor do “Mandato do Céu”.Por ora, a wenming (civilização cultural) chinesa continuará a estar subordinada ao marxismo-leninismo. Mas o tempo ditará se a elite dominante – que detém o controlo político do país através do PCC – manterá um partido marxista-leninista[-maoista-dengista-xiista] ou se gradualmente o transformará num partido com uma ideologia proto-confucionista mais enraizada na história e na cultura chinesas.Em qualquer caso, apesar de alguma cooperação entre o PCC e os partidos comunistas dos poucos países acima referidos, as relações externas da China são ditadas por razões que não a da solidariedade ideológica e o PCC mantém relações institucionais, a nível internacional, com muitos outros partidos políticos de outros quadrantes ideológicos, a começar pelos tradicionais inimigos “mencheviques” (partidos da Internacional Socialista). 2. O legado do “século de humilhação”Para a China, o conceito de esferas de influência está intrinsecamente ligado ao colonialismo e ao imperialismo do século XIX e início do século XX. Durante o chamado século de humilhação, a própria China foi retalhada em “zonas de interesse” por potências estrangeiras.O governo chinês defende o princípio da “não-ingerência” nos assuntos internos como corolário da soberania absoluta de cada país. Apoiar esferas de influência validaria a ideia de que países maiores têm o direito de ditar o destino de países menores, algo que a R. P. China condena para evitar que o mesmo seja feito contra ela.3. O modelo de “parceria, não aliança”Diferentemente dos EUA, que possuem uma vasta rede de tratados de defesa mútua (como a NATO, o AUKUS, o QUAD), a China prefere o que chama de parcerias estratégicas.Pequim prefere flexibilidade: alianças formais criam obrigações de segurança que poderiam arrastar a China para conflitos indesejados.Mantendo o foco nas vertentes comercial e económica, ao evitar blocos militares rígidos, a China consegue manter relações comerciais com países que são, em teoria, rivais entre si (como Irão e Arábia Saudita, ou Israel e nações árabes).4. Autocontenção da China no exercício da sua soberaniaPor ora, a China tem restringido as suas pretensões com base na soberania ao Mar do Sul da China, ao Mar da China Oriental e a Taiwan, como corolário da política de “Uma só China”.Apesar da postura agressiva na ocupação de ilhotas e atóis no Mar do Sul da China dentro das ZEE de estados vizinhos, a China não invadiu nem derrubou regimes rivais no Sudeste Asiático, como os EUA fizeram na América Latina e a URSS / Rússia na Europa de Leste – com uma exceção: a breve e desastrosa invasão do Vietname, em 1979, para honrar o acordo em matéria de Defesa com o Camboja, que fora invadido pelo Vietname, para pôr fim ao regime genocida dos Khmer Rouge.Mesmo em relação a estados vizinhos frágeis – como é o caso do Afeganistão, do Quirguistão, do Laos – Pequim tem sido cuidadosa, utilizando a via da cooperação e do comércio e investimento económicos.5. Mudança para a multipolaridadeA China defende uma ordem mundial multipolar, onde o poder é distribuído e não concentrado em grandes “polos” que dominam regiões geográficas específicas.Ao rejeitar as esferas de influência, a China posiciona-se como a “campeã do mundo em desenvolvimento”, contrastando a sua postura com o hegemonismo dos EUA, que Pequim frequentemente acusa de manter uma mentalidade de Guerra Fria.5. Globalização e interdependência – a China pretende ser uma potência globalA teoria das esferas de influência também vai contra a pretensão da China de ser uma [super]potência global. O país tem investido na ordem multilateral institucional existente – onde a sua influência é maior a cada ano – e fomentado a criação de novas organizações internacionais e iniciativas globais.A ascensão da China ocorreu dentro do sistema de comércio global, tendo beneficiado muito com a globalização. O estabelecimento de uma “esfera” fechada poderia limitar o acesso da China a mercados vitais e tecnologias noutras partes do mundo.A aposta nos BRICS – que vão crescendo e incluindo novas potências médias em todos os continentes – dá-lhe um papel especial no diálogo com o Sul Global e expandir os seus laços com países em desenvolvimento em todo o mundo.Realisticamente, deixou recentemente de reivindicar ser um país em desenvolvimento – o que foi correto desde a entrada para o Movimento [dos Países] Não-Alinhados, nos anos 50 do século XX, até aos dois primeiros decénios do século XXI – e assumiu o papel de grande potência industrial, comercial e tecnológica, e também, em menor medida, militar.Apesar de uma gradual deslocalização de empresas chinesas para outras geografias – nomeadamente para o Sudeste Asiático e a África Oriental –, o setor exportador continua a ser fulcral para sustentar o crescimento económico da economia chinesa. Concomitantemente, a China vem investindo significativamente no desenvolvimento de mercados estrangeiros capazes de consumir os excedentes de produção incapazes de ser absorvidos pelos consumidores chineses.Em vez de controlo político direto, a China utiliza investimentos em infraestrutura, logística e setores primário e secundário para ganhar influência, de que o melhor exemplo é a Iniciativa Cinturão e Rota (BRI). Pequim argumenta que isso é “desenvolvimento compartilhado”, e não uma tentativa de criar um bloco de satélites políticos.Por outro lado, para reforçar a sua segurança alimentar e energética, a China continua a ser uma importadora líquida de alimentos e hidrocarbonetos, tendo diversificado as suas cadeias de abastecimento.Em suma, a China precisa de manter e reforçar a sua influência em todas as regiões do mundo, que não apenas na sua imediação. A sua integração económica global é condição essencial para o seu crescimento e prosperidade, o que, por seu turno, é fulcral para honrar o pacto social entre o PCC e a população chinesa – prosperidade e bem-estar económico e social em contrapartida de uma redução de direitos civis e políticos.Alguns analistas consideram que a China busca uma primazia regional na Ásia que possuiria as características de uma esfera de influência moderna, apenas vestida com uma linguagem de “cooperação win-win”. Porém, a estratégia e atuação da China é à escala global, não regional.Aceitar um mundo dividido em esferas de influência limitaria a liberdade de ação económica global da China e viria pôr em causa toda a estratégia chinesa, e isso não lhe é, de todo, possível para a sua liderança.Além disso, apesar da recente retórica ‘Monroeana’ da liderança norte-americana, a realidade mostra que os EUA continuam a operar a uma escala global – seja no plano económico, seja no plano militar. Pelo que a liderança chinesa interpreta o discurso estado-unidense das esferas de influência como mais uma forma de tentar conter a ascensão e expansão da China no plano internacional.