Poder sem credibilidade: os improvisos da crise EUA–Irão

Victor Ângelo

Conselheiro em Segurança Internacional. Ex-secretário-geral-adjunto da ONU

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Apesar da sua complexidade política, das contradições e das turbulências, as negociações em curso entre os Estados Unidos e o Irão podem ser avaliadas de forma positiva. Depois de meses de combates diretos, foi assinado um memorando de entendimento e estabelecido um quadro para um cessar-fogo, com o Paquistão e o Qatar a atuar agora como mediadores. Porém, a crise não está resolvida e uma análise objetiva das suas várias dimensões revela importantes lições para as relações internacionais.

Quando os EUA iniciaram os ataques contra o Irão, em estreita coordenação com Israel, esperavam um desfecho rápido e a rendição total do adversário. O resultado foi outro. O Irão respondeu, interrompeu o tráfego no Estreito de Ormuz e mostrou que não seria derrotado sem impor custos elevados aos atacantes. A eliminação, no início do conflito, do Líder Supremo, o Aiatola Ali Khamenei, não provocou o colapso do regime iraniano que Washington antecipava. A tática da “decapitação” da liderança mostrou-se falível, contrariando certas doutrinas militares. O Irão designou uma nova chefia e manteve a capacidade de resistência.

Isso mostrou, do lado americano, uma falha de avaliação do contexto, com um impacto muito sério sobre a credibilidade política da Casa Branca – algo muito mais difícil de reconstruir do que novos arsenais. Credibilidade não se mede pela escala das ofensivas. Resulta da coerência política, do respeito pelos compromissos e da confiança que uma potência inspira – acima de tudo, aos seus aliados.

A retirada dos EUA do JCPOA (o acordo nuclear de 2015), a saída caótica do Afeganistão e a erosão dos pactos no Iraque não foram atos isolados. A eles acrescentaria as ambiguidades relativas à ajuda à Ucrânia e ao futuro da NATO. Tudo isto forma um padrão – e são esses padrões que os outros governos estudam ao decidir sobre o futuro das suas alianças de defesa. Para os Estados do Golfo, o conflito de 2026 confirmou a tendência: uma aliança com Washington é uma questão de conveniência e circunstância. Esses países procuram agora diversificar as suas parcerias para reduzir a sua exposição estratégica. Essa é a consequência direta da perda de confiança.

As negociações não visam obter um tratado de paz. Na melhor das hipóteses, as discussões em curso servirão para manter o status quo. Para muitos, isso será visto como uma vitória da estratégia iraniana. Nesse caso, o temor que mantinha muitos países alinhados com Washington sairá enfraquecido. Quando os governos veem que uma superpotência que se apresenta como garante da sua segurança não consegue ditar plenamente a sua vontade a um país como o Irão, poderão ponderar que chegou o momento de procurar alternativas.

A recente cimeira da ASEAN com a Rússia em Kazan exemplificou essa mudança. Os Estados-membros da ASEAN – incluindo Timor-Leste – assinaram um amplo plano de cooperação com a Rússia até 2030, incluindo no domínio da segurança regional. Apesar das reservas sobre a conduta de Moscovo na Ucrânia, os países do Sudeste Asiático recusaram aceitar a narrativa ocidental que retrata a Rússia como um país-pária. A mensagem vinda da ASEAN foi clara: não pretendem subordinar os seus interesses a uma ordem liderada pelo Ocidente que consideram cada vez mais incoerente e autocentrada. Quando o conflito fechou o Estreito de Ormuz, as nações asiáticas sofreram perdas económicas reais – e os seus interesses foram ignorados por Washington.

Para a China, as lições são igualmente claras. Se Pequim empregar o próprio poder no Mar do Sul da China ou em Taiwan de modo percebido pelos vizinhos como ameaçador, poderá provocar uma reação similar à que os EUA enfrentaram – aliados cada vez mais céticos e reticentes. A China, à semelhança dos EUA, tende a confundir dominância com liderança. Ora, domínio impõe submissão; liderança gera compromisso. E é o compromisso que perdura.

A Rússia percebeu à sua própria custa, e observando os EUA no Médio Oriente, que uma grande potência envolvida num conflito prolongado fica mal na fotografia e perde aliados. Para responder ao isolamento e preservar influência, adota iniciativas diversas e tenta explorar novas alianças – a cimeira em Kazan e as operações no Sahel são exemplos disso.

Existe, porém, uma instituição criada precisamente para limitar a instabilidade e promover a cooperação: as Nações Unidas. A ONU nasceu do reconhecimento de que paz duradoura não pode depender de uma única potência agindo por sua conta. É preciso um quadro comum – com regras, obrigações e consequências partilhadas. Um quadro que estabeleça os limites e que permita aos mais fracos confiar em algo mais sólido do que a boa vontade e os humores voláteis dos poderosos.

As ações militares fora das regras do Direito Internacional não danificam apenas a reputação dos autores: minam o sistema que deve assegurar a paz. Cada vez que uma potência age como se a sua leitura muito própria dos factos se sobrepusesse às normas universais, enfraquece a instituição de que todos dependem.

Revitalizar as Nações Unidas não é uma ambição idealista; é uma necessidade estratégica. É vital repetir esta verdade. Uma ONU com autoridade real para mediar conflitos e responsabilizar as grandes potências não é um obstáculo a interesses legítimos – é o único substituto fiável ao ciclo contínuo de erosão da confiança que a crise de 2026 voltou a evidenciar.

O veredicto que se forma, para quem observa as relações internacionais com espírito crítico e livre, é este: o poder exercido sem princípios, ao improviso, é como um catavento desorientado, incapaz de indicar o rumo certo. Uma paz imposta pela força e pela pressão económica não é paz – é apenas um intervalo até ao próximo confronto. A paz duradoura assenta no reconhecimento de que todos os Estados, por mais diversos que sejam, fortes ou fracos, têm igual direito à segurança e à soberania, e que o mundo deve ser regido pela lei, não pela vontade do mais forte.

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