Na cada vez maior lista de contradições, promessas não-cumpridas e inverdades proferidas por Carlos Moedas há uma que é um verdadeiro tratado de despudorada desfaçatez. Em 2022 anunciou o Plano de Saúde 65+, que iria “levar a saúde a casa dos lisboetas”, sendo “um passo maior para construir o Estado Social Local”, para que “130 mil lisboetas com mais de 65 anos pudessem ter, ilimitadamente, consultas e teleconsultas quando não têm acesso a médico de família”. O primeiro sinal de alarme surgiu quando a oposição liderada pelo Partido Socialista percebeu que Moedas gastou mais a publicitar o plano do que a executá-lo.
A máquina de propaganda dominou durante algum tempo a narrativa. O problema começou quando se percebeu que o plano, afinal, não passava de um serviço de teleconsultas. Mas fica pior: no início deste ano, o plano nem sequer estava em funcionamento porque Moedas se esqueceu de renovar contratos essenciais.
É difícil não ver ironia nisto. Um projeto apresentado como estrutural, quase fundacional de uma nova abordagem municipal à Saúde, suspenso por incompetência básica. Não estamos a falar de uma reforma complexa. Estamos a falar de contratos que tinham de ser renovados. Não foram e os poucos idosos da nossa cidade que aderiram a este plano viram-se privados do acesso ao que lhes tinha sido prometido.
Durante meses o discurso foi ambicioso. Falou-se de acesso, proximidade e resposta a falhas do sistema nacional. Mas, na prática, o plano resume-se a uma linha telefónica com médicos do outro lado. Potencialmente útil, mas longe de ser transformador. E, ainda assim, nem este serviço resistiu.
O episódio expõe um padrão: a política como narrativa, onde o anúncio vale mais do que a execução. Onde o impacto mediático substitui o impacto real. E onde a ausência de escrutínio permite que conceitos inflacionados passem por soluções concretas.
Carlos Moedas construiu grande parte da sua imagem nesta lógica: clareza de mensagem, simplicidade de propostas, forte presença mediática. Mas, quando a realidade testa essa consistência… surgem fissuras. Um “plano de saúde” que desaparece por falta de renovação contratual não é um lapso técnico. É um sintoma de incompetência e de uma demagogia que nos transporta para o pior que o populismo nos tem trazido.
Mais do que um erro, é um retrato de governação em que o marketing político antecede a substância. No fim, o “plano de saúde” aproxima-se de um gambozino: muito anunciado, mas impossível de encontrar quando se procura.
Deputado à Assembleia da República eleito pelo PS. Presidente do PS Lisboa