Poderia ter escolhido outros símbolos de Torres Vedras, a começar pelo Carnaval, mas acredito que para os torrienses a cidade estaria bem representada, na sua identidade e sentido comunitário, por estas três instituições. O Pastel inventado pela Dona Joaquina, e depois industrializado pela fábrica Coroa, no princípio do século XX, uniu-nos pela convicção de que podemos criar valor sempre que inventamos mundos novos. A Caixa Agrícola de Torres Vedras, quase a fazer 111 anos, resultado da ousadia dos nossos 14 fundadores, fortaleceu a ideia de que juntos podíamos crescer a partir do que nos faltava. E o Sport Club União Torreense, nascido no primeiro dia de maio de 1917, foi obra de jovens que não tinham onde praticar desporto. Nesta época de feroz individualismo é importante recordar o que nos une, o que não se pode dividir. Curiosamente, é essa a origem da palavra “indivíduo” que vem do latim individuus, o “indivisível” que é, à partida, um ato de exclusão. Veio-me agora à cabeça a história de Robinson Crusoe – tudo o que é essencial na narrativa ganha sentido quando o náufrago resgata um homem e o batiza de Sexta-Feira. Só a partir daí, Robinson ganha um olhar humano, só com um outro redescobre a empatia, a esperança, a amizade e a partilha. Tenho estado a ler Sobre os Sentimentos, obra do filósofo António de Castro Caeiro. Aconselho-o pela capacidade do autor, professor na Universidade Nova e investigador em Oxford ou na Academia de São Paulo, de nos oferecer chaves de entendimento sobre ideias e palavras absolutas que têm perdido valor numa sociedade egoísta, consumista e individualizada. São magníficas lições acerca dos sentimentos, mas também sobre o desejo, o espanto, o sublime, a liberdade, a esperança, o amor ou a ira. Nós somos o conjunto de todas as gerações passadas e futuras. E é essa condição de pertença que nos obriga a nós europeus à responsabilidade de estar à altura, à obrigação de preservarmos o que nos faz únicos, como diria George Steiner. Continua a ser na Europa que se vive melhor, continua a ser aqui o melhor lugar para quem acredita que os seres humanos devem ser protegidos nos seus direitos, mas também estimulados ao entendimento. Só na Europa os cafés existem para que as pessoas se encontrem, conversem, discordem, tenham ideias. A democracia é isto, a liberdade individual depende sempre do que dela fizermos em nome da liberdade coletiva.O que tem isto a ver com o Torreense? Absolutamente tudo. Nuno Carvalho, atual presidente da SAD, juntou vontades e, a partir da identidade do concelho onde nasceu e da sua própria visão e coragem, criou a estrutura para que as vitórias acontecessem. O Clube estará no Jamor, precisamente 70 anos após ter perdido com o FC. Porto por 2-0. E disputará a possibilidade de subir à 1.ª Divisão até à última gota de suor. Nuno tem feito um trabalho de autor com enorme respeito pelo passado, incremento dos jovens e um notável apoio ao futebol feminino que acaba de ser apurado para a próxima edição da Liga dos Campeões. Há muitos anos, numa outra vida, presidi num tempo difícil à assembleia-geral do clube. E o presidente emérito da nossa Caixa, António José dos Santos, também foi líder do Torreense, o último a estar na divisão maior. Temos uma ligação identitária. Não podemos perder a oportunidade de fomentarmos o orgulho de pertença na nossa comunidade, de aproveitarmos o entusiasmo dos nossos miúdos que agora se reveem no Pozo, no Drammeh, mas também na Carolina Correia ou na Weimer. Há um dinamismo forte nas empresas, na cultura, na política local, na Caixa Agrícola e no desporto. Torres Vedras é uma cidade viva, comunitária e que não dorme. Hoje, a Oeste tudo de novo.