Passos, ou a arte de governar nas costas do povo

Em 2011, Passos Coelho prometeu que ia acabar com a austeridade e foi o que se viu; em 2026, quer fazer uma aliança com Ventura, que defende tudo e o seu contrário. Reconhece-lhe “bastante mérito”: como não?
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Um dos grandes mistérios da política nacional é o de haver quem considere Pedro Passos Coelho uma espécie de reserva moral da nação. Em consonância, o ex-primeiro-ministro adotou nos últimos anos um look monástico, ascético até, assumindo sem peias a pose grave de suprassumo da moralidade, apesar de, no seu comportamento, evidenciar uma indisfarçada ambição de mandar às couves o atual presidente do seu partido, o mesmo que nos tempos do seu governo lhe foi, como líder do grupo parlamentar do PSD, mui fiel escudeiro.

É uma bela história de traição, mesmo se sem alturas de Shakespeare, esta a que estamos a assistir, e que teve na entrevista que Passos deu este domingo a Maria João Avillez na SIC-N o seu mais recente e retumbante episódio. Aliás, Avillez fez questão de lembrar a Passos o quão valioso lhe foi Montenegro no parlamento, e Passos admitiu, citando a então presidente da Assembleia da República, Assunção Esteves, que lhe teria feito notar isso mesmo.

Mas isso agora não interessa nada, porque agora Montenegro está no lugar a que Passos se considera predestinado — por um acaso deveras  imprevisto, o governo do PS caiu ao fim de menos de dois anos de maioria absoluta e quem estava à frente do PSD era o líder que era suposto ser para “queimar”. E esse líder, imagine-se, foi a votos e ganhou — com maioria relativa, mas ganhou. 

Ora se Montenegro ganhou e Passos, que se guardava para regressar depois do período de queimanço, ficou apeado, é necessário agora ligar o lança-chamas. Assim, ouvimos do ex-presidente do partido a certificação de que o PSD “se deixou cair numa armadilha” porque Montenegro deveria, logo em 2024, face à reorganização política do parlamento, que passou de uma clara maioria de esquerda para uma clara maioria de direita, ter-se entendido com o Chega e a Iniciativa Liberal. 

Oiçamos Passos: “As pessoas não vão compreender que tendo colocado a sua escolha, o seu voto, em partidos que se sentam no parlamento à direita do PS, e são mais de 60% dos deputados que se sentam à direita do PS, não vejam nessa maioria parlamentar que escolheram a capacidade de entendimento que permita aos portugueses acharem que dentro de quatro, cinco anos, as coisas podem ser transformadoras. (…) O PSD tinha a obrigação de explorar essa possibilidade.”

Comecemos por notar que Passos evidencia ter mudado radicalmente de ideias sobre entendimentos e coligações pós-eleitorais. Há 11 anos, quando o seu governo minoritário, empossado por Cavaco Silva após a coligação PSD/CDS-PP ter tido mais votos nas legislativas de 4 de outubro, foi derrubado no parlamento e substituído por um governo do PS, com o apoio do BE e do PCP, acusou-os de terem “formado uma maioria de ocasião nas costas do povo”, certificando que era a coligação PSD/CDS-PP que tinha legitimidade para governar. 

Houve aliás quem desde então apelidasse António Costa de “o usurpador”, como se este tivesse, pela força ou pela insídia, tomado um trono de forma ilegítima. Agora, como se constata, Passos descobriu, além dos méritos da insídia, os do parlamentarismo. De repente não o repugna a possibilidade de, face aos resultados das urnas, e como é há tanto tempo tão comum na maioria dos países europeus, os partidos negociarem alianças ou coligações pós-eleitorais.

Este seu entusiasmo é de tal modo intenso, como costuma suceder com o dos recém-convertidos, que chega ao ponto de defender que essas coligações ou alianças devem acontecer até quando um ou mais dos partidos em causa juraram que jamais ocorreriam. Só assim se compreende que diga que Montenegro deveria ter procurado um entendimento com o CH e a IL logo em 2024 — a seguir a umas eleições em que o presidente do PSD garantiu, no famoso “não é não”, que nunca faria qualquer entendimento com o Chega.

Para Passos — como aparentemente para a entrevistadora, a quem não ocorreu lembrar a minudência da jura de Montenegro —, o que se diz antes das eleições, para conquistar o máximo de votos, é coisa que não interessa nada. Já tínhamos reparado nisso em 2011, quando, enquanto líder da oposição, proclamava que não iria “pedir mais sacrifícios aos que mais precisam”, e que “a austeridade não pode incidir sempre no aumento de impostos e no corte de rendimento”, tendo apresentado um programa eleitoral no qual certificava: “A austeridade não deverá afetar o rendimento real disponível dos grupos mais desfavorecidos da nossa sociedade (nomeadamente pensionistas).”

Não pode pois surpreender que, tendo Passos, como todos sabemos (incluindo os que se esforçam por que esqueçamos), uma perspetiva meramente instrumental da promessa pré-eleitoral, se tenha na entrevista desfeito em loas a André Ventura, a quem diz conhecer “há algum tempo” e possuir “bastante mérito”. Que mérito exatamente? O de ter conseguido fazer crescer muito o seu partido — um feito, sem qualquer dúvida, tanto mais que, a crer nas últimas sondagens, até já ultrapassou o PSD em intenções de voto — e de evidenciar “um poder de iniciativa notável”.

Mas é só isso que, solicitado por Avillez a dar a sua opinião sobre Ventura, tem a dizer? São esses os únicos méritos que lhe reconhece? Face às alegadas convicções de Passos e ao seu tão apregoado ímpeto reformista, não deveríamos ter ouvido da sua boca outro tipo de elogios? 

Conhecendo-o há tanto tempo, tendo sido o líder partidário que o lançou na estonteante carreira política ao escolhê-lo para candidato à Câmara de Loures e ao apoiá-lo no discurso racista anti-ciganos (que levou, recorde-se, o CDS-PP a romper a coligação com o PSD nessa cidade), sabe decerto quais as “reformas” que André Ventura defende. É pois estranho manifestar escândalo ante a débâcle da reforma laboral apresentada pela coligação governamental, ou ante a proposta do Chega de baixar a idade da reforma — que considerou “absurda”, “irrealista” e “com excesso de populismo” (fórmula interessante, esta; para Passos, há populismo moderado).

Mais estranho ainda que traga o fracasso da reforma laboral para a entrevista como exemplo daquilo que se podia ter evitado caso o PSD tivesse procurado fazer um acordo de legislatura com o Chega: “Uma boa parte parte das reformas dignas desse nome, que precisam de apoio popular e apoio parlamentar, provavelmente não o têm — veja o que aconteceu com a reforma laboral.”

Vimos, pois: à 25ª hora, apercebendo-se do desagrado da maioria dos portugueses, Ventura deu uma cambalhota cheia de mérito, vociferou contra "o bar aberto dos despedimentos" e deixou o Governo descalço. Para Passos, isto é culpa do PSD, não do Chega; o que nos está a dizer é que acha, ou sabe, que Ventura teria votado diferente caso recebesse alguma coisa em troca. 

Daí que responda, em tom professoral, “é natural” quando a entrevistadora lhe pergunta se não considera que Ventura “tem muito mais votos que ideias”, e que quando aquela cita, desgostada, um cartaz do Chega que propõe pagar a descida da idade da reforma com “o dinheiro da corrupção”, justifique: “As propostas irrealistas acontecem em todos os partidos que têm uma génese mais populista e querem crescer à custa dos partidos mais tradicionais que não entregam às pessoas aquilo de que elas estão à espera.” 

A responsabilidade das promessas tresloucadas do Chega é, então, do ponto de vista de Passos Coelho, do PSD que não lhe deu a mão, que não o levou para o poder, que não lhe permitiu o lustro dos gabinetes e das responsabilidades governativas. Porque, temos de concluir, a Passos a mentira reiterada, a calúnia, as propostas mais absurdas, as ameaças de mandar prender pessoas, as pateadas no parlamento contra chefes de Estado em visita, as medalhas para polícias que matam pessoas desarmadas, o racismo mais abjeto e cruel, não causam qualquer engulho. Nem sequer, de resto, o impressiona a repulsa dos 70% de portugueses que, incluindo a maioria dos eleitores do PSD, foram nas presidenciais às urnas votar contra André Ventura. Onde a maioria vê rejeição maioritária, Passos, crendo no seu ascendente sobre o líder do Chega, vê oportunidade — a sua. Nada mais, muito menos “aquilo de que as pessoas estão à espera”, lhe interessa. Tal qual como a Ventura.

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O projeto de transformação de Passos
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