Mesmo mesmo invulgar

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Passos Coelho surpreendeu toda a gente - quiçá ele próprio? - ao apelar ontem, numa entrevista à rádio católica, a "grupos de cidadãos" para tomarem "tão rápido quanto possível" iniciativas no sentido de exigir um referendo sobre a interrupção da gravidez, concluindo: "Não veria impossível que se voltasse a realizar um referendo sobre essa matéria." Afiançam-nos desde então que "só disse" que "é preciso melhorar e avaliar a lei". Mas o que esteve em causa nos dois referendos sobre a matéria, em 2007 e 1998, foi alterar o Código Penal, que criminalizava o aborto por decisão da mulher, e possibilitá-lo em estabelecimentos legais de saúde. E como as únicas iniciativas de referendo surgidas desde a alteração da lei visam a repetição da mesma pergunta, "os cidadãos" que Passos incitou a voltar à carga só podem ser os que querem que o aborto seja crime.

Sabendo-se que o próprio se apresenta desde o início da sua caminhada para a liderança do partido, em 2008, como "um liberal nos costumes", e se assume a favor da actual lei, que pode tê-lo levado a introduzir o assunto na campanha? "Respeito pela democracia", diz. Fica sempre bem. Mas passados quatro anos sobre o referendo - no qual votaram "Sim" mais portugueses que os que elegeram o actual PR - a matéria está longe de suscitar celeuma. Há, é certo, um grupo de cidadãos que exige um novo referendo sobre o aborto. Também querem um sobre o casamento das pessoas do mesmo sexo, outro sobre procriação assistida e, se não erro, sobre o fim do divórcio litigioso e a utilização de células estaminais. É pois de concluir que a intenção deste candidato a primeiro-ministro é, numa altura em que o País se encontra naquilo que ele define como a pior situação económica e social dos últimos séculos, "abrir a porta" a referendos sobre tudo e um par de botas, independentemente do que ele, que até já se pronunciou a favor da adopção por casais do mesmo sexo, ache sobre as matérias em causa?

Há gente para tudo, OK. Mas a ser assim, que é das propostas de referendo no programa eleitoral do PSD? Ah, não estão. Hum. Há quem avente que, face à subida nas sondagens do CDS-PP, Passos quis assegurar ao eleitorado da direita ultra que está disposto a deitar ao lixo aquilo que apresentou publicamente como convicções pessoais - a fazer companhia ao "liberalismo económico", à revisão constitucional do conceito de justa causa no despedimento e a muitas outras matérias. Mas se é duvidoso que o pronunciamento de ontem lhe traga um único voto, tendo antes a virtualidade de mobilizar a esquerda, prova em definitivo que estamos perante um homem invulgar. Não é todos os dias que depararmos com alguém que renega assim, com tal facilidade, tudo aquilo em que diz acreditar. E se já ninguém pode saber em que crê, é já caso para perguntar se o próprio tem alguma ideia - a não ser, é claro, a de ser primeiro-ministro a qualquer preço.

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