Como lidar com as imagens que chegam de Paris? Que palavras usar, se possível com alguma inteligência e espírito construtivo, para lidar com os sinais de uma destruição tão brutal e, perversão absoluta, tão anónima? Como fazer política? Ou melhor: como pensar politicamente o que está aí, transformado em macabro folhetim, nos nossos ecrãs caseiros?
Choca-me a ligeireza de alguns comentadores – e são cada vez mais, arrumados nos quadradinhos do ecrã, lado a lado com a destruição que passa em loop, à maneira de um clip publicitário no corredor de um centro comercial. São comentadores que começam quase todas as frases por “eu acho”, para logo a seguir catalogarem o vandalismo em Paris através de evocações de Maio de 68 ou massacres da Idade Média. Talvez. Mas falta-lhes essa monumental exigência intelectual que faria com que, escutando-os, fossemos encaminhados para algum pensamento útil – limitam-se a proclamar “eu acho” como se fosse um prólogo divino que autoriza, legitima e torna universal todas as comparações pueris que se vão seguir.
Eu não acho que o cinema possua uma qualquer “explicação” para o que está a acontecer, mas não posso esconder que aquilo que vejo (também) me faz pensar em filmes. Fraqueza cinéfila: penso em Paris, no amor de Paris nascido com os filmes. Penso, assim, na primeira longa-metragem de Jean-Luc Godard, À Bout de Souffle (1960), entre nós lançada como O Acossado. E nas imagens emblemáticas de Jean-Paul Belmondo e Jean Seberg a descerem os Campos Elísios – ela anda a vender o New York Herald Tribune, ele está para partir para Roma e quer que ela o acompanhe...
Poderíamos começar assim mais uma digressão sobre um filme que é tão significativo para a evolução do cinema como o quadro Les Demoiselles d’Avignon, pintado em 1907 por Pablo Picasso, para a história da pintura. Mas não é essa a questão. Acontece que Godard e os seus companheiros da Nova Vaga francesa foram também arquitetos de novas imagens de Paris e, nessa medida, criadores de novas dramaturgias de espírito parisiense (há mesmo um filme coletivo de 1965, com episódios assinados por seis realizadores, incluindo Godard, que se intitula Paris Visto Por...). O que vemos em À Bout de Souffle é o lugar como cenário esplendoroso, mesmo quando possa ser habitado pela tragédia, aberto à pluralidade da experiência humana.
A atual destruição de ruas e casas de Paris ignora o lugar. Ignora mesmo o seu tecido simbólico, a ponto de as barreiras policiais que possam proteger espaços e edifícios indissociáveis da história da cidade e da República serem indiferentes aos agentes de tal destruição – basta-lhes virar para uma rua ou praça lateral e consumar aí as suas agressões. A cidade desapareceu do seu mapa mental, já que ocupam o mundo (o mesmo mundo em que nós vivemos ou tentamos viver) como um território virtual em que qualquer desejo de relação com a cidade foi anulado por um niilismo sem rosto, apenas identificável pelas ruínas que consegue espalhar em qualquer cenário.
Há algo de involuntariamente caricato no modo como os mesmos comentadores procuram reconhecer a influência das “redes sociais” em tudo o que está a acontecer. Claro que, mais do que nunca, importa lidar com os efeitos perversos dessas “redes”, mas será preciso não esquecer as ilusões de transparência e ecumenismo com que, há cerca de duas décadas, foram por muitos recebidas. Porquê? Porque se as “redes sociais” destruíram alguma coisa foi o próprio valor social das relações humanas – ou será que o polegar ao alto colocado num post de um “amigo” da Cochinchina passou a ser o único gesto político que nos resta para pensarmos a nossa vida em comum?
No limite mais trágico de tudo isto, o niilismo em que estamos enredados, diariamente, reforçado pelo tom catastrofista de muitas formas de “jornalismo” de raiz televisiva, alimenta uma obscena indiferença por esse buraco de continuada agitação em que se transformou o presente. Aos comentadores que “acham” tudo e mais alguma coisa, é mesmo todos os dias pedido não apenas que cataloguem de modo definitivo o passado, mas também que funcionem como oráculos do amanhã.
Provavelmente, somos todos como os alemães que Nietzsche observava em Para Além do Bem e do Mal – 1886 não é 2026, mas vale a pena reler. Partindo da abertura dos Mestres Cantores, de Wagner, escrevia ele que os alemães “são de anteontem e de depois de amanhã”. E concluía: “Ainda não têm hoje.”