“Parecia que estava no liceu outra vez”

Margarida Vaqueiro Lopes

Subdiretora do Diário de Notícias e diretora executiva do Dinheiro Vivo

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A frase foi dita pelo antigo presidente dos EUA, Barack Obama, durante a sua terceira vinda a Portugal, no passado dia 10 de outubro, enquanto recordava a importância e a capacidade que cada um tem. Obama contava a história de como, quando foi eleito senador estadual pelo Illinois, em 1996, se surpreendeu nos primeiros dias de trabalhos. “Cheguei lá e comecei a ouvir os outros políticos e percebi que era como o liceu outra vez. Havia os miúdos maus, os populares, os que achavam que eram melhores que os outros. Depois cheguei ao Senado federal e percebi que era como o liceu. E finalmente, quando fui eleito presidente e cheguei ao G20 pensei: isto é como o liceu!”

Esta pequena recordação do antigo presidente servia, também, para explicar a importância de cada pessoa ter noção do seu valor, não se sentindo intimidada pelos outros que estão na sala. Todos, salientou, devem ter a ambição de fazer o melhor possível em qualquer circunstância, e não se deixar desmoralizar pela posição, cargo ou imagem dos outros.

Aplaudido pelos milhares de pessoas que estiveram no Pavilhão Atlântico este sábado – pode ler a cobertura editorial desta intervenção no site do Diário de Notícias –, Obama arrancou ovações várias dos presentes, sobretudo quando falou da importância da Democracia, da regulação [sobre Inteligência Artificial, no caso] e de como o bem comum deve estar acima do interesse próprio na tomada de decisões diárias.

"Aplaudido pelos milhares de pessoas que estiveram no Pavilhão Atlântico este sábado, Obama arrancou ovações várias dos presentes, sobretudo quando falou da importância da Democracia, da regulação [sobre IA, no caso] e de como o bem comum deve estar acima do interesse próprio na tomada de decisões."
"Aplaudido pelos milhares de pessoas que estiveram no Pavilhão Atlântico este sábado, Obama arrancou ovações várias dos presentes, sobretudo quando falou da importância da Democracia, da regulação [sobre IA, no caso] e de como o bem comum deve estar acima do interesse próprio na tomada de decisões." FOTO: Nuno Ramos | Game Changers

Barack Obama é um orador excelente. Sempre o foi. Assim que ele saiu da sala, as redes sociais encheram-se de elogios e de palavras como “privilégio” e “inspiração” para descrever o seu discurso, que, sejamos sinceros, nem sequer teve a aura de tantos outros que já lhe ouvimos. Mas é claro que é inspirador. É claro que é um privilégio ouvi-lo e estar na mesma sala que ele – não apenas por ter sido presidente dos EUA, mas pelo caminho que fez e pelo que representa, ainda hoje.

O que impressiona, sobretudo nos tempos atuais, é o facto de as pessoas parecerem só se sentir inspiradas quando ouvem alguém que vem de tão longe para dizer algo que devia ser bom-senso: cuidemos uns dos outros; respeitemo-nos; não deixemos a sociedade retroceder para um tempo em que as nossas filhas não têm as mesmas oportunidades e direitos que os nossos filhos; ajamos localmente, porque a mudança começa em cada atitude que tomamos; não nos deixemos intimidar por rufias; cuidemos e respeitemos quem cuida dos nossos – professores, enfermeiros, médicos…; travemos os sentimentos tribais, movidos pelo medo, e lembremos que juntos podemos transformar o mundo num lugar melhor; não caiamos na armadilha de acreditar em chavões fáceis, que escondem manobras de poder.

"Nem sempre o dos mais populares ou o dos que se acham melhores que os outros é o grupo que vai chegar ao final da escola com melhores resultados – dentro e fora da sala de aula."

Obama veio a Portugal falar de uma série de coisas que deviam fazer parte das nossas lembranças diárias e pode ser que tenha ajudado a colocá-las no topo das nossas atenções nos próximos tempos – precisamos bastante de uma sociedade mais atenta, empática e serena. No entanto, importa recordar que, como ele, muitas pessoas à nossa volta – na nossa casa, no nosso trabalho, nas lojas que frequentamos, nas escolas dos nossos filhos, nos hospitais a que vamos – fazem destas pequenas ações de bom senso a sua prática diária. Que privilégio é ouvir um [antigo] líder do mundo livre a pregar valores em que todos acreditamos; que privilégio aplaudi-lo e beber da sua experiência. Mas privilégio ainda maior será procurarmos as suas palavras no mundo que nos rodeia, diariamente, e lembrarmo-nos de que para termos um mundo melhor, temos todos de ser parte da sua construção.

Se nos órgãos máximos de poder “é como no liceu”, na nossa vida também. É preciso, por isso, escolher bem em que grupo queremos ficar. E nem sempre o dos mais populares ou o dos que se acham melhores que os outros é o grupo que vai chegar ao final da escola com melhores resultados – dentro e fora da sala de aula. Se “isto é como o liceu outra vez”, sejamos os alunos que acabam com boas notas, sem tratar mal colegas e professores, e com amigos para a vida. O mundo poderá ser muito diferente se todos tivermos esse objetivo.

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