A frase foi dita pelo antigo presidente dos EUA, Barack Obama, durante a sua terceira vinda a Portugal, no passado dia 10 de outubro, enquanto recordava a importância e a capacidade que cada um tem. Obama contava a história de como, quando foi eleito senador estadual pelo Illinois, em 1996, se surpreendeu nos primeiros dias de trabalhos. “Cheguei lá e comecei a ouvir os outros políticos e percebi que era como o liceu outra vez. Havia os miúdos maus, os populares, os que achavam que eram melhores que os outros. Depois cheguei ao Senado federal e percebi que era como o liceu. E finalmente, quando fui eleito presidente e cheguei ao G20 pensei: isto é como o liceu!”
Esta pequena recordação do antigo presidente servia, também, para explicar a importância de cada pessoa ter noção do seu valor, não se sentindo intimidada pelos outros que estão na sala. Todos, salientou, devem ter a ambição de fazer o melhor possível em qualquer circunstância, e não se deixar desmoralizar pela posição, cargo ou imagem dos outros.
Aplaudido pelos milhares de pessoas que estiveram no Pavilhão Atlântico este sábado – pode ler a cobertura editorial desta intervenção no site do Diário de Notícias –, Obama arrancou ovações várias dos presentes, sobretudo quando falou da importância da Democracia, da regulação [sobre Inteligência Artificial, no caso] e de como o bem comum deve estar acima do interesse próprio na tomada de decisões diárias.
Barack Obama é um orador excelente. Sempre o foi. Assim que ele saiu da sala, as redes sociais encheram-se de elogios e de palavras como “privilégio” e “inspiração” para descrever o seu discurso, que, sejamos sinceros, nem sequer teve a aura de tantos outros que já lhe ouvimos. Mas é claro que é inspirador. É claro que é um privilégio ouvi-lo e estar na mesma sala que ele – não apenas por ter sido presidente dos EUA, mas pelo caminho que fez e pelo que representa, ainda hoje.
O que impressiona, sobretudo nos tempos atuais, é o facto de as pessoas parecerem só se sentir inspiradas quando ouvem alguém que vem de tão longe para dizer algo que devia ser bom-senso: cuidemos uns dos outros; respeitemo-nos; não deixemos a sociedade retroceder para um tempo em que as nossas filhas não têm as mesmas oportunidades e direitos que os nossos filhos; ajamos localmente, porque a mudança começa em cada atitude que tomamos; não nos deixemos intimidar por rufias; cuidemos e respeitemos quem cuida dos nossos – professores, enfermeiros, médicos…; travemos os sentimentos tribais, movidos pelo medo, e lembremos que juntos podemos transformar o mundo num lugar melhor; não caiamos na armadilha de acreditar em chavões fáceis, que escondem manobras de poder.
Obama veio a Portugal falar de uma série de coisas que deviam fazer parte das nossas lembranças diárias e pode ser que tenha ajudado a colocá-las no topo das nossas atenções nos próximos tempos – precisamos bastante de uma sociedade mais atenta, empática e serena. No entanto, importa recordar que, como ele, muitas pessoas à nossa volta – na nossa casa, no nosso trabalho, nas lojas que frequentamos, nas escolas dos nossos filhos, nos hospitais a que vamos – fazem destas pequenas ações de bom senso a sua prática diária. Que privilégio é ouvir um [antigo] líder do mundo livre a pregar valores em que todos acreditamos; que privilégio aplaudi-lo e beber da sua experiência. Mas privilégio ainda maior será procurarmos as suas palavras no mundo que nos rodeia, diariamente, e lembrarmo-nos de que para termos um mundo melhor, temos todos de ser parte da sua construção.
Se nos órgãos máximos de poder “é como no liceu”, na nossa vida também. É preciso, por isso, escolher bem em que grupo queremos ficar. E nem sempre o dos mais populares ou o dos que se acham melhores que os outros é o grupo que vai chegar ao final da escola com melhores resultados – dentro e fora da sala de aula. Se “isto é como o liceu outra vez”, sejamos os alunos que acabam com boas notas, sem tratar mal colegas e professores, e com amigos para a vida. O mundo poderá ser muito diferente se todos tivermos esse objetivo.