"Hay que detener la Europa de la derecha”, é o argumento de Pedro Sánchez para justificar o que vem fazendo, do laxismo migratório à manipulação do problema da habitação e à neutralização de magistrados incómodos.
Foi, de resto, “para parar a direita” que sabotou as medidas sobre a imigração ilegal do Conselho Europeu na sexta-feira, 16 de Outubro, numa polémica reunião em que, contra as propostas da Itália, da Polónia, da Dinamarca e da República Checa, bloqueou uma recomendação mais dura sobre imigração.
Diga-se que uma das proponentes, a primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, é ideologicamente próxima de Sánchez; só que, ao contrário do primeiro-ministro espanhol que tem como prioridade continuar na Moncloa, Frederiksen parece ter como prioridade o bem comum do seu país. Como disse o presidente da República Checa, “há políticos capazes de substituir a população com imigrantes só para continuarem no poder”.
E para continuarem no poder, neste “tempo schmittiano”, em que é o inimigo que determina o amigo, os políticos – da esquerda mais radical ao centrão mais melífluo – descobriram o activismo “contra a direita” (que é sempre extrema).
Lula, longe do populismo, diz ele, aumenta a Bolsa da Família e agita a ameaça do trumpismo e do imperialismo americano; a corrupção dos Moraes e companhia no Supremo Tribunal Federal é apagada, porque o perigo é Bolsonaro e os bolsonaristas.
O mesmo acontece na Europa: a esquerda radical pode vir para as ruas saquear e queimar à vontade, mas o perigo continua a ser a violência dos nazis da AfD, dos fascistas do Rassemblement National, dos pós-fascistas de Meloni. Na Hungria, a perseguição aos dirigentes do Fidesz pode estar ao rubro, com o ex-ministro da Cultura de Orbán, Balázs Hankó, detido sob vagas alegações de “administração ilegal”, mas o perigo permanece ligado à deposta “ultra-direita iliberal”.
Por cá passa-se o mesmo, embora com aspectos menos trágicos ou mais cómicos, se não fossem tão tristemente reveladores do pântano em que nos atolamos. Sob o mesmo lema de “parar a direita”, temos a democrática proibição da Associação Académica de Coimbra da entrada do Chega nas “suas” instalações. Quando a Rádio Universidade, num assomo de tolerância, pediu às deputadas do Chega que participassem num debate em que, ao contrário de todos os outros representantes partidários, teriam de estar online, dada a democrática proibição de entrada do Chega na Academia, e Rita Matias e Madalena Cordeiro se dirigiram aos estúdios para participar presencialmente no debate, os democratas dos outros partidos, perante aquela flagrante “ameaça à Democracia”, retiraram-se em protesto.
E houve depois a cena patética, verdadeiramente acaciana, de um punhado de estudantes de capa e batina, sábios, condescendentes, engomados, correctos, com livros na mão para “parar a extrema-direita”, enfim, para ensinar os ignorantes e lhes dar uma boa lição de democracia.
Ao mesmo tempo, a ERC avançava com pesadas coimas para dissuadir as televisões privadas de passarem o anúncio pró-vida de Miguel Milhão, propaganda de direita “psicologicamente agressiva” para “a saúde reprodutiva das mulheres”. E como se não bastasse - sempre para salvaguardar as instituições e a democracia e parar a, sempre extrema, direita - o Parlamento votava uma lei ad hominem para absolver Luís Neves dos delitos praticados na sua gestão da Polícia Judiciária.
Uma sugestão: substitua-se o “A Bem da Nação” dos documentos da Estado Novo por um “Para Parar a, Sempre Extrema, Direita”.
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia