Retomo alguns números do cinema português em 2025 (aqui citados num texto publicado há uma semana). Assim, em 2025 chegaram às salas 58 títulos de produção portuguesa, incluindo os que nasceram de alguma colaboração com entidades estrangeiras: 52 foram vistos por menos de 5000 espectadores; 25 não atingiram o patamar dos 1000 espectadores, 14 ficaram abaixo dos 500. Como lidar com esta catástrofe? Um vício antigo leva a que continuem a circular as ideias (ou a falta delas) segundo as quais o cinema português deveria optar entre ser “artístico” ou “comercial” — como se o mais comercial dos cineastas (Alfred Hitchcock) não fosse um dos génios absolutos da história do cinema... O que se passou é bem diferente: deixou de haver, se é que alguma vez existiu, um público específico para o cinema português. Esta afirmação carece, aliás, de um complemento mais drástico: num tecido cultural em que telenovelas, Reality TV e futebol formaram um outro público (dominante), o que está a acontecer é o desmantelamento do público regular de cinema — de todo o cinema, incluindo a produção, outrora dominadora, dos EUA. O impacto da pandemia pode ainda ajudar a explicar alguma coisa, mas assistimos a algo muito mais fundo: a morte lenta de uma clássica cultura cinematográfica, esmagada por uma cultura de televisão & internet enraizada em valores meramente instrumentais de imagens e sons. Tudo isto é evidente, como é evidente que a nova filosofia do audiovisual passou a ser enunciada, não por perigosos “intelectuais”, mas sim por Cristina Ferreira — escutando-a com inflexível atenção, José Alberto Carvalho é apenas o avatar de cada um de nós, espectadores deserdados de qualquer política cultural. .Ainda assim, há uma pergunta sobre o estado das coisas do cinema que “ninguém” quer formular. Perguntar por que razões não há espectadores nas salas é fácil, faz mesmo parte das lamentações com que aconchegamos a nossa angústia (e não me estou a excluir dessa prática). Mas falta ir um pouco mais longe: se se fazem tantos filmes que quase não são vistos... porque é que se fazem tantos filmes? As respostas não estão num qualquer moralismo quantitativo — como se se tratasse de proclamar que se produza mais “disto” ou mais “daquilo”... Até porque importa reconhecer uma componente óbvia de toda esta conjuntura: se se fazem os filmes que se fazem, isso resulta da consolidação de uma nova rede de produção enraizada em fontes de financiamento mais diversificadas (comissões, autarquias, etc.) e também em formas de apoio oficial à exibição de títulos de raiz portuguesa. Há um efeito prático desta conjuntura cuja perversidade é desconcertante: fazem-se filmes de pequeno orçamento (cujas dificuldades de produção ninguém nega), mas que, não poucas vezes, se confundem com modelos de difusão televisiva mais ou menos ligados à tradição daquilo que, noutro tempo, usava o rótulo de “artes & letras” — será que alguém acredita, sinceramente, que tais filmes possam mobilizar um público significativo (e estável) para as salas de cinema? .Que acontece quando a produção de filmes não está intimamente ligada à organização do mercado? Os espectadores desaparecem. .Os criadores têm direito à sua criação, os produtores à sua produção, os exibidores aos seus critérios. Não é nada disso que está em causa, não se trata de pregar moral para distinguir os “bons” e os “maus”. Acontece que esta inflação de produção cresce tanto mais quanto se fecham os olhos (e os pensamentos) à raiz das coisas. A saber: os valores mais fortes da atual cultura televisiva — a começar pelos modelos de ficção que mais espaço ocupam nessa cultura — contribuem para a consolidação de um público imenso que nada sabe sobre a vida dos filmes, não tendo sido educado através de um saber marcado por algum desejo de cinema. Em termos friamente didáticos: há mais filmes, mas não há mercado pensado em aliança com a produção que, mal ou bem, vamos tendo. Os próprios profissionais de cinema, certamente com exceções, dão-se ao luxo de não enfrentar, pensando-a, essa nova cultural audiovisual e os seus poderes normativos. Não é simples encontrar um profissional que arrisque tal pensamento. É sempre mais fácil descobrir um cineasta indignado com o crítico A, B ou C que, supostamente, “destruiu” o seu trabalho com um texto de três mil caracteres — como se esse texto fosse o único fenómeno a assinalar em mais de meio século da nossa saga audiovisual.