Os iliberais do costume

Jaime Nogueira Pinto

Politólogo e escritor

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Os autocratas iliberais são terríveis, no modo como se agarram ao poder. No domingo, 12 de Abril, o chefe de fila dos populistas de extrema-direita, o patriarca nacional-conservador da Hungria, Viktor Orbán, uma hora e meia depois do fecho das urnas, telefonou ao seu antigo correligionário e agora rival, Péter Magyar, cumprimentando-o pela vitória. E na fala para os seus partidários, referiu que “o resultado das eleições era doloroso, mas claro”.

Assim, contrariando a massa dos políticos e dos media europeus, que lhe atribuía sinistros esquemas de fraude, compra de votos e resistências pós-eleitorais no caso de derrota, tudo se passou na maior transparência e tranquilidade.

Assim, para grande surpresa dos embasbacados comentadores locais, o “iliberal” Orbán cumpriu as regras do jogo – mais um dirigente da direita nacionalista e conservadora europeia que, não só não armadilhou o poder para não sair de lá, como, quando vencido, saiu cumprimentando o vencedor. Os polacos nacionais-conservadores do Partido da Lei e Justiça, quando perderam as legislativas em Outubro de 2023 também deixaram o poder sem levantar problemas à Coligação Cívica de Donald Tusk.

Bem pelo contrário, os seus adversários, os reputados representantes do europeísmo pluralista, têm recorrido à fraude e à manipulação do sistema, quando se vêem em dificuldade perante os votos populares: assim aconteceu na eleição presidencial da Roménia, quando o Tribunal Constitucional, em Dezembro de 2024, decidiu anular a primeira volta da eleição com base em relatórios governamentais e dos serviços de inteligência e segurança domésticos que referiam “interferências estrangeiras” para influenciar o voto dos cidadãos romenos.

Os vencedores da primeira volta eram Elena Lasconi (pró-Bruxelas) e o nacionalista Cãlin Georgescu, que deviam defrontar-se na final. O Tribunal Constitucional ordenou, em 28 de Novembro, uma recontagem que, a 2 de Dezembro, confirmou os resultados. Perante esta confirmação e sondagens que davam Georgescu como claro vencedor na segunda volta, o sistema não quis correr riscos: o Tribunal Constitucional foi convocado de urgência dois dias antes da segunda volta da eleição e, por unanimidade, anulou a primeira volta e os seus resultados, alegando viciamento de todo o processo eleitoral por “violação da igualdade de oportunidades entre os concorrentes”.

De onde vinham os “vícios” e violações alegados? De os candidatos vencedores da primeira volta, sobretudo de Georgescu, terem tido, alegadamente, apoios nas redes sociais (publicidade no TikTok) e financiamentos “estrangeiros” – russos, claro está. As eleições foram anuladas, e novas eleições foram marcadas para 4 e 18 de Maio de 2025. Como se não bastasse, os dois finalistas de Outubro foram proibidos de concorrer. Na eleição “definitiva”, o candidato nacionalista George Simion, apoiado por Georgescu, perdeu contra o pró-europeu ex-presidente da Câmara de Bucareste, Nicusor Dan (53% contra 47%).

A Esquerda e o Centrão têm internacionalizado as eleições (os políticos e media de referência europeus não fizeram outra coisa contra Trump, em 2024). Alegarem como motivo de anulação a “internacionalização” dos apoios é de um grande descaramento.

Na mesma linha, o poder judicial francês processou Marine Le Pen, para a afastar da eleição presidencial de 2027.

E depois de tudo isto, quem é perigosa para a democracia é a extrema-direita.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

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