Vivo nas Avenidas Novas, uma zona de Lisboa onde muitos estrangeiros vivem ou trabalham. Entre esses estrangeiros destacam-se os brasileiros. Nas ruas, nas lojas, nos jardins, ouvem-se mais conversas em português do Brasil do que no português local. É divertido, porque o português dos brasileiros é bem mais animado e colorido do que o nosso. Cruzam-se o “Ui, querida”, com que a jovem empregada saúda a cliente idosa do café, com o “Por gentileza”, com que um brasileiro de meia idade pede uma informação.Os brasileiros que vivem e trabalham em Portugal dedicam-se às mais variadas atividades. São empregados de pastelarias e supermercados, canalizadores, eletricistas, auxiliares de enfermagem, professores, médicos, arquitetos, publicitários, personal trainers, etc. São, por último, reformados (aposentados), que vivem das suas pensões ou de outros rendimentos. Há os bem-educados, honestos, desembaraçados, criativos e trabalhadores zelosos; mal-educados, tolos, preguiçosos e dados a esquemas e aldrabices. Tal como os portugueses.Mas há, pelo menos, uma coisa que nos distingue e não favorece os portugueses. Se formos um daqueles clientes chatos, que, no restaurante, quer o peixe que está na carta, não grelhado, mas frito, arroz em vez de batatas e salada de alface em vez de tomate, o empregado brasileiro sorri, diz que sim e que vai providenciar. E só se lhe for absolutamente impossível não satisfará alguma exigência do cliente.Já o empregado português, se o cliente não for conhecido, responderá com maus modos que “só serve o que está na carta” e volta-nos as costas.Em regra, portugueses e brasileiros dão-se bem. Quando se zangam, é na mesma língua, embora os termos possam variar. Por vezes, manifestam-se atavismos: quando as coisas correm mal, os brasileiros culpam os portugueses, recordando a antiga situação colonial. Quando se irritam, os portugueses queixam-se da excessiva exuberância dos brasileiros e da música aos berros.Mas são zangas pontuais, como as que ocorrem entre irmãos que se estimam.O Estado Português trata mal os brasileiros (também é verdade que não trata bem os portugueses).Há pouco fiz umas ecografias num hospital privado. A médica era uma jovem brasileira, contratada pelas suas ótimas qualificações. Vive em Portugal há um ano, com o marido e um filho pequeno. Não obstante o seu trabalho ser imprescindível, não havendo médicos portugueses para a substituir, o Estado Português tarda em pronunciar-se sobre o seu pedido de obtenção da nacionalidade portuguesa.Queixou-se ao Provedor de Justiça. Recebeu prontamente uma resposta, explicando que a Conservatória dos Registos Centrais tinha informado estar a despachar processos semelhantes, entrados em setembro de 2021.Alguém considera isto normal? Mais de quatro anos e meio para despachar um processo? Mantendo o cidadão numa situação de incerteza, causadora de instabilidade na sua vida?Duvido que a nacionalidade portuguesa seja tão vantajosa que justifique a agonia.