Ormuz é uma crise? Ou é mais um diagnóstico?

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A guerra em torno do Irão e o risco de fecho do Estreito de Ormuz devem ser lidos não apenas como um problema geopolítico imediato, e geoestratégico, mas antes e também como uma red flag brutal sobre a dependência mundial de combustíveis fósseis. Pensávamos nós que este discursinho doce sobre energias limpas/renováveis já tinha resolvido o problema. Mas não. E não será por aí que ele se resolverá, pelo menos na totalidade.  

O argumento central de alguns escritos sobre a situação é, quiçá, provocatório para alguns, realista para outros: em vez de o mundo entrar em pânico com a eventual redução do petróleo disponível, deveria aproveitar esse choque para acelerar a transição para uma economia assente em energias sustentáveis, nucleares (leu bem, nucleares) e renováveis (que não poderão ser as únicas).

Há muito que se sabem alguns factos essenciais: primeiro, que a dependência do petróleo concentra poder em poucos países e que a OPEP vai marcando o compasso de muito do que acontece; segundo, que a queima de fósseis está a desestabilizar o clima e a ameaçar a sobrevivência humana; e, por fim, que as energias ditas renováveis nunca resolverão por completo o problema da substituição pelas suas próprias características: intermitentes e de elevada variabilidade e, por outro lado, difíceis de armazenar e com problemas complexos para a complexidade das redes de distribuição.

Insistir em reabrir rapidamente Ormuz, bloquear ou desbloquear e brincar com Ormuz, no limite, será restaurar o fluxo normal de petróleo agindo como um dependente que luta para voltar a ter acesso à substância que o destrói (vide opinião de Jacques Attali).

Ormuz e a sua reabertura dividem a economia mundial em duas metades. De um lado, a economia do passado, ligada a atividades poluentes, destrutivas e insustentáveis, alimentadas em larga medida pelas energias fósseis que passam por Ormuz. Do outro, a economia da vida, composta por energia limpa, mobilidade sustentável, agricultura sustentável, alimentação saudável, água, reciclagem, cultura, saúde, educação, democracia e media livres. Já existe, hoje, capacidade tecnológica para transferir uma parte muito significativa da primeira economia para a segunda. Mas há muito por resolver e, sobretudo, há a questão do nuclear que não é, de todo, pacífica. Apesar de ser uma energia limpa para o planeta. Sim, já sei, virão os escritos a colocar isto em causa.

O facto é que quase ninguém tem coragem política para assumir, efetivamente, esta viragem. Criticam-se os Estados Unidos, a Índia, a África e até a Europa, que é a região mais bem colocada para liderar esta transformação, mas continua-se refém do medo de perder acesso à velha economia fóssil. E se os preços mais altos dos combustíveis forem úteis para conduzir a um desenvolvimento e apostas mais sérias no apoio à mobilidade pública e à conversão energética?

A conclusão pode ser absolutamente dramática: se daqui a uns 30-40 anos a economia limpa não representar pelo menos dois terços a três quartos do PIB mundial a Humanidade pode arriscar o seu desaparecimento. Ou, em contrapartida, nada está verdadeiramente comprometido dado que o planeta se autorregenera? Mas será que Ormuz pode ainda trazer um momento de lucidez coletiva? Eu gostava muito que fosse, sobretudo para a energia nuclear sobre a qual há imensos tabus e, também, desconhecimentos coletivos. Sobretudo em relação ao pequeno nuclear.

Vamos pagar caro Ormuz? Vamos. Mas que pode ser um wake-up call, pode. Ainda vai a tempo? Pode ser que a dor seja grande e a Euribor a 12 meses, quando este artigo sair, já esteja a 3%. Veremos.

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