As recentes declarações de Netanyahu na Cerimónia do Memorial do Holocausto não podiam ser mais despropositadas. Apelar aos países europeus para se juntarem ao esforço militar contra o Irão era envolver a União Europeia numa lógica de guerra que não se justifica e está a ter resultados trágicos na economia mundial. Foi, aliás, nesta armadilha que os Estados Unidos caíram com as consequências que o mundo conhece hoje.Não é todos os dias que a União Europeia vive um momento de derrota simultânea para Trump e Putin. O resultado das eleições na Hungria reafirmam a justeza dos princípios que norteiam os países da União Europeia.Depois de 16 anos no poder e uma Hungria empobrecida, os húngaros deram uma expressiva vitória a Magyar, do Partido Tisza.De pouco valeu a deslocação do vice-presidente norte-americano JD Vance a Budapeste num apoio a Viktor Orbán. Embora não totalmente comprovadas, se existiram, também de pouco valeram as supostas interferências russas nas eleições húngaras. Círculos políticos europeus falaram de indícios de manipulação de sites fictícios contra opositores, interferências nas redes sociais e campanhas digitais para favorecer Orbán.Objectivamente Trump e Putin foram, politicamente, derrotados. E a sua derrota teve como base a afirmação dos princípios que norteiam a União Europeia.Viktor Orbán, depois de um desvio iliberal, transformou a Hungria numa cópia tosca do que é hoje a Rússia.A Hungria ao afastar-se e ao trair os princípios que regem a União Europeia isolou-se e empobreceu. Nenhum dos ideais políticos que norteiam a Europa era praticado por Viktor Orbán. Não havia liberdade de imprensa. Os jornalistas no desenvolvimento do seu trabalho estavam impedidos de questionar o governo. Um pouco como faz Trump que seleciona para a cobertura da Casa Branca apenas os jornalistas que não levantam questões incómodas para o presidente dos Estados Unidos.Não existia separação de poderes entre o judicial e político. Ao longo dos anos Orbán foi colocando os seus apparatchiks em lugares de confiança.Ao perder a confiança de Bruxelas, a Hungria perdeu também os apoios financeiros e as respectivas transferências de verbas. Qualquer coisa como cerca de 20 mil milhões de euros e ainda subvenções do Orçamento Comunitário de, aproximadamente, dez mil milhões de euros.Esta situação de afastamento da União Europeia implicou um empobrecimento da Hungria que é hoje o segundo país mais pobre da União Europeia com um PIB de apenas 218 mil milhões de euros. Embora com uma dívida baixa (73% do PIB) o crescimento era anémico. Em 2025 a Hungria apenas cresceu 0,3 %.A corrupção campeava num sistema que dava oportunidades apenas aos que apoiavam a ditadura de Orbán. Uma cópia da oligarquia russa.As recentes eleições expressaram, pois, o descontentamento da população quanto à governação de Viktor Orbán. A vitória de Magyar vai permitir uma transformação profunda no país. Ao obter mais de dois terços da totalidade dos votos, e ao vencer em 93 dos 106 círculos eleitorais, Magyar pode mudar a Constituição e com isso alterar a face do país no sentido de uma democracia.O resultado das eleições na Hungria dá também uma nova energia e vitalidade à União Europeia com uma aproximação à Polónia, reforçando assim a linha de defesa contra o imperialismo russo.Estas eleições são pois um elemento importante na afirmação política da União Europeia agora, praticamente, abandonada pelos Estados Unidos que, com as suas atitudes, tem comprometido o eixo transatlântico.O resultado das eleições vai, igualmente, desbloquear o empréstimo de 90 mil milhões de euros destinados à Defesa da Ucrânia e que eram, sistematicamente, vetados por Viktor Orbán. Más notícias, portanto, para a Rússia.O resultado eleitoral na Hungria vai, então, dar um novo fôlego à afirmação política da União Europeia num mundo que conhece transformações inesperadas e surpreendentes. Para o reforço político da União Europeia na estratégia mundial falta agora o regresso da Grã-Bretanha que tanta falta faz à Europa e que tanto tem sido prejudicada pela sua saída do clube europeu. Por agora, com estas eleições, o mundo conheceu a afirmação dos princípios democráticos e o valor que eles representam quando um povo toma nas suas mãos os destinos de um país. Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico