Vencer a guerra sem ganhar a paz?

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A estratégia que Israel tem seguido no confronto com o Irão e os seus aliados poderá vir a ser bem-sucedida no plano militar. O Hamas está muito enfraquecido, o Hezbollah perdeu o seu líder e boa parte dos seus comandantes e o Irão é obrigado a reagir às iniciativas de Israel de formas mais espetaculares do que letais,  para tentar salvar a face perante os seus próprios aliados. O ataque de ontem, com mísseis balísticos, parece ter sido mais um desses ataques orquestrados, com fugas de informação à mistura, que têm por objetivo preservar a credibilidade do Irão como potência regional, mas sem provocar uma guerra total com Israel e, sobretudo, com os Estados Unidos. Neste momento, o Médio Oriente é como um agitado salão de baile, onde todos dançam ao som da música de Israel, incluindo os próprios Estados Unidos. A poucas semanas das eleições presidenciais, Joe Biden procura evitar um confronto direto com o Irão, mas ao mesmo tempo é forçado a deixar claro que não vai deixar cair Israel, dando a Netanyahu a margem de manobra de que este precisa para ajustar contas com os inimigos do seu país e tentar refazer o mapa do Médio Oriente.

O que irá acontecer no futuro próximo vai depender da forma como Israel retaliar contra o Irão após o ataque de ontem, para além do que vier a suceder na sequência da sua incursão no Sul do Líbano. Porém, mesmo que Israel seja bem-sucedido nos diferentes tabuleiros e saia desta guerra com uma vitória decisiva sobre o Irão e seus proxies, dificilmente haverá paz na região num futuro próximo. A vitória que Netanyahu tem para oferecer aos seus concidadãos não parece ser uma paz duradoura com os vizinhos que assegure a segurança das gerações vindouras. Pelo contrário, Netanyahu terá a oferecer-lhes a paz possível numa fortaleza rodeada de perigosos inimigos sedentos de vingança. Mesmo que o Hamas ou o Hezbollah desapareçam debaixo dos mísseis de Israel, depressa surgirão novos grupos terroristas, financiados pelo Irão ou outros Estados inimigos e alimentados por décadas de ódio e ressentimento. E o ciclo repetir-se-á.

A paz faz-se com os inimigos, não com os amigos. Conflitos como o do Médio Oriente não podem ter uma solução militar, porque o preço da mesma, qualquer que seja o vencedor, seria uma catástrofe humanitária de dimensões inimagináveis ou mesmo um genocídio. O caminho para a paz tem de se fazer através de negociações que abram caminho a uma solução de dois Estados, que garanta a segurança de Israel e os direitos dos palestinianos. Continuar a guerra sem criar as condições para negociar uma paz justa e duradoura não passará de um exercício estéril ao abrigo da Lei de Talião. Será Netanyahu tão ousado a fazer a paz como já demonstrou ser a travar a guerra? E estarão os inimigos de Israel dispostos a reconhecer o seu direito a existir e a viver em segurança? 

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