Quem leu Origens, sabe como Amin Maalouf ama o Líbano. Nele fala da saga familiar, num livro excelente, ainda que não tão famoso como Samarcanda. Mas como muitos libaneses, o destino do escritor foi a emigração, no seu caso a França, polo de atração sobretudo para os cristãos maronitas, culturalmente a comunidade mais ligada ao ex-colonizador. .Entrevistei Maalouf há uns meses sobre O Labirinto dos Perdidos, livro que fala dos desafios ao Ocidente. Não houve pergunta sobre o Líbano, mas quando lhe pedi opinião sobre os conflitos atuais, deu-me uma resposta que dá pistas para o que se passa no país: “Creio que as crises existentes estão no essencial ligadas a fenómenos locais, e a situação global, situação a que podemos chamar uma nova Guerra Fria, encoraja a polarização que torna essas crises muito mais complexas e muito mais difíceis de resolver. As crises nascem com a realidade e a realidade resolvê-las-á. O conflito na Ucrânia é evidente e o do Médio Oriente também. São crises que estão lá há várias décadas, e que atualmente estão ligadas, em parte, ao confronto com o Ocidente e os seus adversários. Mas isso é só um aspeto, no essencial existe a realidade local que fez com que esses conflitos durem desde a primeira Guerra Fria e que continuem na segunda Guerra Fria.”.O que são “ fenómenos locais”? Certamente podemos falar da aversão árabe à criação de Israel em 1948. E também da ausência de uma solução para o povo palestiniano, que o leva a estar no centro dos acontecimentos, por verdadeira ou falsa solidariedade dos vizinhos. Mas centremo-nos no Líbano, um pedaço da Síria histórica que a França autonomizou e depois deixou tornar-se independente. Uma independência em 1943, com um sistema de partilha do poder entre as comunidades que permitiu décadas de uma prosperidade de fazer inveja aos países petrolíferos. Beirute era “a Paris do Médio Oriente”. .O Líbano de hoje é um país herdeiro não dessa era, mas sim do caos da guerra civil (que envolveu até Israel, a OLP e a Síria). Essa acabou em 1990, mas deixou marcas duradouras, como a desconfiança entre comunidades e a influência de potências, o Irão o mais visível por causa do Hezbollah, mas também a Arábia Saudita e outras..A milícia xiita é igualmente um partido político e usa a sua dupla condição para manipular a governação. O sistema continua a prever um presidente maronita, um primeiro-ministro sunita e um presidente do parlamento xiita, refletindo um recenseamento com 80 anos que nunca foi repetido por receio de desequilibrar a reação de forças. O Hezbollah, contando com alguns aliados entre os cristãos, tem bloqueado a eleição de um presidente, procurando impor um candidato..O mais grave é o Estado libanês ter de responder por aquilo que falha no dia à dia do país, desde os cortes de eletricidade à gestão do lixo, mas não mandar nada do ponto de vista militar. Israel desocupou o Sul do Líbano em 2000, mas em 2006 ataques do Hezbollah provocaram uma guerra, que terminou com um acordo que previa que as forças armadas libanesas, com apoio da ONU, assumissem o controlo da fronteira. Nunca aconteceu, e a seguir ao 7 de Outubro, o Hezbollah iniciou nova campanha de ataques que há dias levou à resposta israelita, mais uma guerra dramática para cinco milhões de libaneses, reféns dos interesses do Hezbollah, gostem ou não dele..O que sentirá Maalouf ao ver mais esta tragédia no seu país? Jornalista