Sobre a Geórgia e “os agentes estrangeiros” ao serviço de Putin

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Seria uma injustiça não reconhecer, como um facto saliente da semana, a coragem demonstrada pelos cidadãos da Geórgia que recusam a nova lei sobre “os agentes estrangeiros”. Apesar da violência da polícia de choque, a capital do país, Tbilissi, tem conhecido manifestações gigantescas contra uma lei que é uma cópia da legislação repressiva inventada por Vladimir Putin na Rússia e que ele tem procurado fazer adotar nos países satélites vizinhos, nomeadamente no Quirguistão e agora na Geórgia. Na base deste expediente legislativo está a intenção de acabar com a imprensa livre e as associações de cidadãos que se opõem à ditadura e ao imperialismo de Putin. Nessas terras, a luta pela democracia só resiste se beneficiar da solidariedade internacional. Para mais, quando o medo, que é o primeiro rolo compressor desses regimes, paralisa e impede a maioria dos cidadãos de se exporem.

Ser classificado como “agente estrangeiro” equivale a ser carimbado como “traidor”. Uma palavra demolidora, quando Putin pretende convencer os seus concidadãos que o Ocidente está a tentar destruir a Rússia e a proceder ao seu cerco, através do aliciamento político dos povos e dos países da antiga URSS. A recente celebração do Dia da Vitória teve como mistificação principal a invenção disparatada que a NATO estaria em guerra contra a Rússia. A Ucrânia seria uma das portas de entrada. A Geórgia seria outra. Criar o caos na Geórgia permitiria estabelecer mais uma zona tampão e serviria para travar os processos de adesão desse país à UE e à NATO.

Ao invés, quem já mostrou ser uma ameaça para a estabilidade e a paz na Europa é o próprio Putin. Não me refiro apenas à agressão contra a Ucrânia nem ao que está a ocorrer na Geórgia. Tenho em mente as ameaças que Putin e os seus repetem continuamente contra nós, incluindo as referências ao possível uso de armamento nuclear. Essas afirmações têm de ser levadas a sério. Por isso, somos obrigados a desviar recursos para gastos excecionais com a defesa.

Os orçamentos públicos, por muito desenvolvidos que sejam os países europeus, não chegam para tudo. O que será destinado à defesa já não irá para outros sectores da economia nem para a resposta às questões sociais, ambientais ou para a ajuda ao desenvolvimento dos países mais carenciados. Os agentes de Putin que se movimentam no nosso seio, sobretudo nos partidos populistas e os que têm acesso privilegiado à comunicação social, farão o trabalho do seu ídolo e irão criar reivindicações impossíveis, espalhar propaganda contra a Ucrânia e opor-se ao fornecimento de assistência militar à legítima defesa ucraniana. Falam de paz nos termos que servem os interesses da guerra e a anexação ditada pelo Kremlin.

As eleições europeias de junho oferecem uma oportunidade de ouro a essa gente. As centrais de produção de mentiras e de alienação trabalham agora a todo o vapor. Alguns propagandistas e outros manipuladores fá-lo-ão por convicção ideológica ou pequenez mental, outros a soldo de Moscovo. Quando se vê certos comentadores repetir nos media aquilo que leram de manhã na imprensa moscovita, podemos perguntar-nos se são pagos para o fazer, ou se nos querem fazer crer em almoços grátis. Esta é uma pergunta que não pode deixar de ser feita.  

Certos serviços de contraespionagem europeus também se interrogam sobre a questão. Não é caso para menos, quando se vê o que dizem e escrevem certas personalidades públicas que não perdem uma oportunidade para atacar as nossas democracias, enquanto enaltecem Putin e outros ditadores. Segundo o jornal checo Denik N, a Rússia tem pagado que se saiba a políticos franceses, neerlandeses, belgas, alemães, polacos e húngaros para fazerem campanha contra a coesão e os interesses da UE e cantarem loas a Putin e à sua política interna e externa. Ao ver o que alguns por aqui dizem, creio que a lista do quotidiano checo só pode pecar por defeito. Falta no mínimo mencionar certos portugueses e outros italianos. Temos ainda canais de televisão que aproveitam o vazio deixado pelo bloqueio ao espaço de intoxicação da RT - Russia Today, por via das sanções, para oferecer uma programação que parece um eco ou uma tradução caseira dessa estação russa.

Putin representa um perigo real. A sua paranoia principal é não perder o controlo do poder, com todas as vantagens que tal proporciona. Para o conseguir, inventou um inimigo, a democracia ocidental. Isso inclui tentar impedir que exista uma Europa unida, livre e solidária entre si e com os povos que lutam pela sua liberdade. Cabe-nos proteger essa Europa, reforçando a nossa defesa, precisamente porque queremos a paz, e desmascarando os agentes de Putin que, por aqui, nos tentam ludibriar e enfraquecer.

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