Sim, pode existir um impulso automático, difícil de adiar, para usar o telemóvel ao fim do dia de aulas, logo à saída do espaço escolar (ou até a meio do dia, na hora de almoço). Porquê? Pelo desconforto associado ao medo de perder alguma coisa que se esteja a passar online (FOMO – fear of missing out) que é aliviado quando são verificadas todas as notificações nas redes sociais, nos jogos ou nas aplicações.Este “craving digital” acontece quando há dificuldade de resistir a uma vontade intensa de estar online, pois o cérebro já aprendeu que há recompensas, que são rápidas, e que também há sempre novidades. Por isso, os gatilhos como o tédio, a necessidade de regulação emocional (de se acalmar, de evitar algo, de se distrair perante situações difíceis de lidar ou de stress), ou simplesmente momentos de silêncio, de pausa, e de estar sozinho consigo próprio podem estar associados à urgência de pegar no telemóvel.Este não é o único sinal de alarme para a dependência digital. É importante avaliar também se existem outras áreas na vida do adolescente com impacto negativo associado à dificuldade de autorregulação do uso do telemóvel, como, por exemplo, o estudo, o sono, a socialização.Com as medidas recentes de restrição do uso do telemóvel em meio escolar, que têm um lado positivo, ainda que sejam medidas de regulação externa, o “craving digital” começa a ser comentado por pais e professores, ao relatarem o que vêm à porta das escolas – “estão agarrados aos ecrãs, porque não podem usar no espaço escolar!” ou então, os relatos do que acontece em casa – “tem sempre o argumento que pode usar o telemóvel o tempo que quiser, pois esteve o dia inteiro sem usar!”.A investigação nesta área alerta para a prevalência de 26% de dependência do telemóvel (em adolescentes e adultos), e como tal, para estes o momento de saída da escola pode ser um gatilho. É estar em “abstinência digital”, em privação, e no segundo a seguir pode surgir o desejo incontrolável de mergulhar no mundo online. Se o cérebro do adolescente não resiste ao FOMO, se já está responsivo à dopamina, ao bem-estar associado ao uso do telemóvel, e ainda, o vê como uma forma de descompressão emocional (porque a escola foi sentida como exigente pela socialização presencial e pela necessidade de foco), então, o ecrã é uma forma de evasão e conforto rápido.Será que é só conforto e alívio? Não, não é. Este comportamento tem outros riscos associados. O caminho de regresso da escola a casa, é um momento de socialização por excelência, para rir, conversar, fazer partilhas, planear atividades com os amigos, e se ao invés disto temos uma “caminhada social em modo de zombie” o que vamos ter é cada um na sua passada, no seu trajeto, sem qualquer atenção à passadeira, ao semáforo e ao risco de acidente. Para além disto, as notificações e mensagens podem trazer mais ansiedade, pela comparação social do que vêm nas redes ou pela pressão de resposta nos diferentes grupos.É importante haver um momento de transição que favoreça a descompressão do dia passado na escola. Podem ser estimulados alguns rituais, como: conversar com os amigos, lanchar, ouvir um pouco de música, pensar em como vai organizar o tempo a seguir, ou até um desporto, ou atividade lúdica, sem que a escolha diária, e imediata, seja estar de pescoço para baixo a olhar para o ecrã.Os adultos podem ser modelos digitais nesta gestão dos momentos de transição. Como? À porta da escola, nós, os adultos, podemos focar-nos no contacto visual e na disponibilidade para perguntar “como foi o teu dia?” e menos no ecrã e no sroll.O diálogo aberto, em família, com treino do juízo critico, sobre como usar o ecrã nas nossas vidas, é uma boa ferramenta a levar no bolso todos os dias.