Portugal precisa de bons líderes

Filipe Alves

Diretor do Diário de Notícias

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Portugal tem muitos problemas conhecidos, mas há um que raramente é discutido com a frontalidade necessária: o défice de liderança. Não é um problema abstrato, nem um conceito académico. É uma realidade concreta que atravessa o Estado, as empresas, a administração pública, as instituições e muitas das organizações que compõem a sociedade civil.

Precisamos de bons líderes nos governos, nos partidos, no desporto, na cultura, nas empresas, nos serviços públicos, nas autarquias, nas escolas, nos hospitais e nas associações. Precisamos deles porque sem liderança não há direção, propósito e futuro.

A diferença entre um bom líder e um mau líder é simples e antiga: maus líderes servem-se; bons líderes procuram servir. Essa é a fronteira moral que separa quem usa o cargo para si próprio de quem usa o cargo para o bem comum.

"Portugal tem muitos problemas conhecidos, mas há um que raramente é discutido com a frontalidade necessária: o défice de liderança."
"Portugal tem muitos problemas conhecidos, mas há um que raramente é discutido com a frontalidade necessária: o défice de liderança."Orlando Almeida

Ninguém é perfeito. Todos somos humanos, erramos e falhamos. Mas há uma linha que não pode ser perdida: o norte.

A liderança exige imperfeição consciente, não perfeição fingida. Exige humildade, não vaidade. Exige responsabilidade, não espetáculo.A boa liderança torna o país mais produtivo, mais eficiente e mais justo. A má liderança espalha confusão, divisão e polarização, porque vive disso, alimenta-se e prospera nesse ambiente.

A boa liderança eleva, puxa para cima e nunca para baixo. Abre portas e cria pontes. Já a má liderança explora o que há de pior nas pessoas: o medo, o ressentimento, a inveja e a raiva. E transforma isso em método político, empresarial ou institucional.

A boa liderança defende princípios e procura agir de forma coerente. A má liderança usa os princípios como adereço e faz como frei Tomás: “faz o que eu digo, não faças o que eu faço”.

Portugal não sofre de falta de chefes. Chefes há muitos.Não sofre de falta de barulho. Barulho há demais. Não sofre de falta de atores performativos. Performatividade, para não dizer mesmo palhaçadas, é aquilo que mais temos neste país.

"A boa liderança eleva, puxa para cima e nunca para baixo. Já a má liderança explora o que há de pior nas pessoas: o medo, o ressentimento, a inveja e a raiva. E transforma isso em método político, empresarial ou institucional.”

Com honrosas exceções  – que também existem, seja nos governos, nos partidos, nas autarquias, nas empresas e na sociedade civil – o que falta no nosso país é outra coisa: quem decida e assuma responsabilidades. Falta quem faça justiça, não quem castigue. Falta quem procure a verdade, não quem encha a boca com ela. Não falta quem ache que o país lhe deve algo. Falta quem entenda que devemos começar por pensar naquilo que podemos fazer pelo nosso país, por muito que tal soe a uma frase feita.

Se queremos um país melhor, organizações mais bem geridas e instituições mais fortes, temos de começar pelo princípio: o tipo de líderes que queremos ter. E, sobretudo, pelo tipo de líderes que queremos ser.

Sem nunca esquecer que quem quer mudar o mundo deve começar por procurar mudar-se a si próprio.

O DN errou: na edição impressa do DN desta quarta-feira, 2 de julho, houve um lapso na chamada de primeira página da entrevista com Nancy Gomes, da autoria da jornalista Susana Salvador.  A citação correta seria a seguinte: “No imaginário coletivo venezuelano, este terramoto poderá simbolizar o fim de um ciclo político”.  A Nancy Gomes, à Susana Salvador e aos nossos leitores, pedimos desculpa por este lapso.

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