O sismo na Quinta-Feira Santa de 1812 contribuiu para o fim da Primeira República na Venezuela. Que impacto poderá ter o duplo sismo do passado dia 24 de junho? Acha que poderá beneficiar o regime ou a oposição? Tudo dependerá da capacidade do governo para fazer a gestão da catástrofe. Para já, não parece ter sido muito eficiente. Naturalmente, era fácil de prever que não iam existir recursos e, por isso, o governo interino decidiu, desde o primeiro momento, pedir ajuda internacional. Uma coisa que Hugo Chávez não fez em 1999 [na Tragédia de Vargas], querendo transmitir a imagem de uma Venezuela autónoma e independente dos centros de poder internacionais. Ele não quis ajuda e ainda hoje não sabemos ao certo quantas pessoas morreram nas enxurradas. Este governo enfrenta agora um desafio enorme, que se junta a muitos outros. E pode ter impacto se passar a imagem de uma Venezuela sem recursos, sem capacidade de resposta, sem estratégia, sem hospitais suficientes... E essa é a imagem que está a chegar ao exterior, através dos voluntários internacionais, das equipas de socorro e dos jornalistas que conseguiram entrar no país. Por isso, para o governo, este não é apenas um cenário de catástrofe, mas de pesadelo, pelo desafio que significa. Para a oposição poderá representar uma oportunidade. Tudo dependerá da sua capacidade de organização, de mobilização da população e, sobretudo, da capacidade de convencer a administração de Donald Trump de que a transição política deve acontecer rapidamente.A questão é perceber se o sismo vai acelerar essa mudança ou se, pelo contrário, o apoio internacional, incluindo de países politicamente opostos como a Argentina ou El Salvador, poderá reforçar o governo...O grande desafio será a gestão das ajudas e garantir que chegam a quem delas necessita, que a população se sinta beneficiada por essas ajudas. Não sei se o governo é capaz de o fazer. Então o que vamos vendo é uma população que já tinha perdido a confiança no governo, que é ilegítimo. Antes mesmo da extração de Nicolás Maduro já reinava a desconfiança. A população já desconfiava e agora, sabendo-se que estão a chegar apoios, sobretudo financeiros, paira a incerteza sobre quem vai gerir esses recursos, de que forma serão utilizados e se chegarão efetivamente à população. Vamos ver como será. O seu livro chama-se Venezuela: Um País em Suspenso, pensando nessa extração, como lhe chamou, de Maduro há cerca de seis meses. Este sismo deixa o país ainda mais em suspenso?O título corresponde a uma leitura histórica feita de ciclos. No imaginário coletivo venezuelano, e os venezuelanos são muito criativos e imaginativos, este terramoto poderá simbolizar o fim de um ciclo político. A ideia ganha força porque Hugo Chávez ascendeu precisamente após a grande tragédia provocada pelas enxurradas de 1999, ocorrida na mesma região [o antigo estado de Vargas, atual La Guaira]. Por isso, no imaginário coletivo, muitas pessoas poderão interpretar este momento como um sinal de que efetivamente estamos prestes a acabar um ciclo político. Contudo, a história da Venezuela não se resume à questão política. No livro procurei mostrar também as dimensões económica, cultural, migratória e de relações externas.Desde a chegada de Maduro ao poder em 2013, após a morte de Chávez, cerca de oito milhões de venezuelanos terão abandonado o país. No livro fala da ideia do desenraizamento da população venezuelana. Pergunto-lhe até que ponto esses oito milhões de pessoas estarão então dispostos a regressar, caso a democracia seja restabelecida?A ideia de desenraizamento é relativamente consensual entre os estudiosos dos processos identitários e dos vínculos entre a população e a terra na Venezuela. Muitos autores defendem que a “maldição” do país resulta da enorme abundância de recursos naturais. Desde os tempos coloniais, primeiro com as pérolas e mais tarde com o petróleo, a Venezuela foi frequentemente vista como uma mina, como uma terra de passagem, como um território de extração que se explora até se esgotar, sem criar bases sólidas para o futuro. O historiador Arturo Uslar Pietri alertou várias vezes para isso quando defendia a necessidade de “semear o petróleo”, isto é, transformar essa riqueza em desenvolvimento sustentável. Ao longo da história do país, incluindo no período democrático, tem havido algum desleixo, ingenuidade ou falta de visão estratégica. Pensou-se sempre mais no presente imediato do que no futuro. A economia e a política nunca conseguiram criar condições para um desenvolvimento sustentável que beneficiasse a população ao longo do tempo. Voltando à ideia do desenraizamento, também tem muito a ver com a questão da identidade, pegando no conceito das “comunidades imaginadas” de Benedict Anderson. Durante o tempo de bonança criou-se esta ilusão de que os venezuelanos são uma comunidade coerente, integrada, mais ou menos homogénea, porque era destinatária do progresso que a exportação do petróleo trouxe para o país. Arturo Uslar Pietri falava desta Venezuela fingida, que não ia resistir à queda dos preços do petróleo. Com Chávez mostrou-se que a sociedade venezuelana era muito desigual. Chávez, que valorizava mais a justiça do que a igualdade, vai deixar à mostra sérias e profundas divisões que se confundem até com os grupos étnicos - os indígenas e os negros, do lado dos pobres, os brancos do lado dos ricos. E isto, do ponto de vista social, até do imaginário coletivo, gerou muito ódio de uns em relação a outros e é um capítulo da história da Venezuela que nunca tínhamos assistido antes. Passou a haver os que estavam a favor de Chávez, que injustamente tinham sido esquecidos, e os que estavam contra Chávez.No livro fala como os primeiros venezuelanos a sair, ainda com Chávez, são os profissionais, ligados às engenharias e ao petróleo, depois vai a classe média e, a última leva, os mais pobres. Mas, volto a perguntar. Acha que os oito milhões têm interesse em voltar?Tem havido alguns relatórios e estudos que estão neste momento a ser desenvolvidos a partir de inquéritos e entrevistas à diáspora. Não posso afirmar que os oito milhões regressariam. Mas há uma parte significativa que gostaria de voltar caso existam condições adequadas. Porque, como disse, são várias vagas. Mas o fenómeno da migração acontece assim mesmo, só que no caso da Venezuela foi muito acelerado e significativamente grande. A primeira vaga que já saiu há mais tempo e que já está inserida noutras sociedades, naturalmente para essas, só se houver condições, se lhes permitirem participar no processo de reconstrução e até mesmo como investidores é que poderá voltar. Depois há uma classe média, poderíamos dizer, sobretudo jovens que estarão a concluir os estudos. Se houver condições de emprego, e isso vai demorar um pouco, poderão voltar. E os mais pobres vão sempre voltar se houver estabilidade, ordem e paz, porque muitos deles foram a pé e, portanto, podem voltar a pé. Então, volto a dizer, os 8 milhões não voltam, mas podem voltar muitos dos que encontrem na Venezuela condições para o investimento, ou para trabalhar, conseguir empregos. Eu, se pudesse, também estaria disponível a voltar. No fundo, regressam se houver condições, de forma semelhante ao que aconteceu com os portugueses que chegaram à Venezuela durante os tempos de prosperidade.Exatamente. Aliás, a comunidade portuguesa é um bom exemplo. Foi uma das comunidades que melhor se integrou no país e muitas pessoas continuam a acompanhar de perto a situação. Conheço casos de portugueses que regressaram temporariamente apenas para avaliar a possibilidade de reativar os seus negócios. Estão à espera de condições que permitam esse regresso. Não tenho dúvida, pela experiência pessoal da minha própria família, que se houver condições, esses portugueses voltam. Até porque há uma associação que se faz, sobretudo para o português emigrante, que saiu sem nada, e que chegou a um país, a um Estado mágico, que garantiu a todos, pelo menos havia essa ilusão, progresso e desenvolvimento. Os portugueses beneficiaram muito, que o digam as remessas, que chegaram a Portugal nos anos 1970 e 1980. Foram uma importante ajuda para Portugal.Mas por trás de tudo isto, como referiu há pouco, está a questão do petróleo. Acha possível desenvolver novamente a indústria sem repetir os erros do passado e sem negligenciar os restantes setores da economia?Neste momento, o acesso ao petróleo está do lado dos norte-americanos. E o petróleo garantiu sempre o poder real. A história da Venezuela compreendeu momentos de dependência estrutural das petrolíferas norte-americanas. Quando o governo venezuelano conseguiu negociar, por exemplo o momento do 50-50 ou a nacionalização dos anos 1970, a Venezuela teve acesso a esse poder real. Também tinha o poder moral porque estava imersa num processo democrático. Foi nesta altura que a Venezuela conseguiu até desempenhar, a nível internacional, um papel de protagonista. É possível. Mas, no momento atual, o controlo sobre o petróleo está nas mãos dos EUA. Havendo uma transição democrática, um governo legítimo, que o atual não é... aliás, o governo atual não tem nem o poder real, nem o poder moral. Só tem uma lista de assuntos por resolver. A oposição, nomeadamente a María Corina Machado, apesar de o tempo não estar a jogar a favor dela e de ela ter que reforçar a sua liderança, ainda tem uma quota de poder moral. Só que o poder moral sozinho não chega. O importante é juntar o poder moral e o poder real. É o ideal. Mas é uma questão de tempo e de ver como é que, havendo um governo legítimo, que se espera que venha a existir, se passa para uma fase de negociação que permita acautelar, sempre que possível, os interesses dos venezuelanos. Para já, o petróleo está nas mãos dos EUA e continuamos nesta lógica extrativa. O impacto do aumento da extração ainda não se sente na população.Existe o risco de Washington preferir manter a situação actual se isso garantir acesso ao petróleo venezuelano?Isso dependerá da pressão política. Se houver pressão suficiente da diáspora venezuelana, dos países da região e da própria sociedade venezuelana, a administração de Trump poderá concluir que a estabilidade de longo prazo exige uma verdadeira transição democrática. Um país não se trata unicamente a partir da dimensão económica, é preciso o resto, e pode ser que favoreçam o processo de transição política, porque até agora têm obstaculizado. Foi essa transição política o que os venezuelanos pediram em julho de 2024 [nas últimas presidenciais]. Por isso, teremos de observar como evoluem os acontecimentos. A Venezuela continua, de facto, a ser um país em suspenso. .Equipa portuguesa atrás de milagre após 24 horas sem resgates na Venezuela.Sismos na Venezuela. Governo português decreta um dia de luto nacional a cumprir no domingo.Delcy Rodríguez vs. María Corina Machado. O jogo político nos escombros da Venezuela