Porque uma coluna de jornal não é um filme de suspense, vamos dar a resposta à pergunta do título logo à cabeça: sim, pode..Mas, primeiro, expliquemos a enormidade da resposta. Jair Bolsonaro, um militar que se revoltou por ganhar pouco (e o verbalizou num artigo na Veja, em 1986), decidiu entrar na política (em 1988), onde enriqueceu a desviar salários de assessores fantasma, esquema mais tarde ampliado a um, dois, três e agora quatro filhos, ao ponto de a família adquirir 51 imóveis em dinheiro vivo em três décadas..Como, entretanto, a Lava Jato arruinou a reputação dos políticos bons e maus; as redes sociais abriram caminho para aldrabices de campanha em série; Donald Trump foi eleito nos EUA, o país que certo Brasil venera e imita; e um doido pegou numa faca e lhe furou a barriga, o nicho de eleitores saudosos da ditadura militar que o elegia deputado transformou-se numa maioria nacional que o alçou à presidência..O mesmo Bolsonaro que se fez notar enquanto parlamentar por afirmar que preferia ver um filho dele a morrer num acidente do que a namorar um bigodudo, por gritar a uma deputada que só não a violava porque ela era feia, por defender que os brasileiros deveriam ter dizimado mais índios e por dedicar o voto pelo impeachment de Dilma Rousseff ao homem que a torturou, subia a rampa do Planalto..Na presidência, escolheu um militar para a Casa Civil, um analfabeto para a Educação, um inculto para a Cultura, um racista para o Combate ao Racismo, um desmatador para o Ambiente, uma machista para a Defesa das Mulheres e um médico defensor da vacina contra a covid para a Saúde – ops, aqui sentiu que havia um erro de casting e trocou-o logo por um general adepto de um cocktail de remédios tão eficaz contra o vírus como uma pastilha gorila..Depois de 700 mil mortes na covid, tornou-se o primeiro presidente a falhar uma reeleição no Brasil mas foi a tempo de meter ao bolso joias sauditas oferecidas ao Estado e de preparar um golpe com os seus generais nos gabinetes e com o seu gado na praça dos Três Poderes..Inelegível, não redigiu testamento político e abriu caminho a gente – aludindo ao título – pior do que ele: como Pablo Marçal, que falhou, por um triz, a segunda volta na corrida eleitoral em São Paulo..Ao contrário de Bolsonaro, que pode ir lá parar, Marçal já esteve na prisão por integrar uma quadrilha que desviava dinheiro de bancos. Como coach, arrastou 32 incautos para uma serra, sob chuva, “para vencerem o medo”, experiência que só terminou quando os bombeiros, nove horas depois, resgataram os desaparecidos, vencidos pelo medo..Já nos debates disse que, se eleito, mandaria prender o candidato de direita por envolvimento, não provado, num esquema de desvio de merendas escolares, falsificou um relatório médico de uma suposta internação do candidato de esquerda por uso de drogas, sugeriu que a candidata de centro contribuiu para o suicídio do pai e trouxe à tona um caso de assédio sexual, entretanto arquivado, de mais um rival..O currículo repulsivo atraiu metade do bolsonarismo. A outra metade achou-o demasiado nauseabundo até para os seus largos critérios. Porém, animado com os mais de 1,7 milhões de votos, Marçal ameaça concorrer a presidente em 2026..Que Deus nos livre de ainda vir a ser necessário um dia escrever uma coluna sob o título “pode haver pior do que Marçal?”.