O milenar homem do momento

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Escreve sobre os homens e as sociedades como eles são, na aventura e tragédia da História. É o homem de que precisávamos neste tempo de tiranos colectivos e anónimos que passam por libertadores.

É um historiador da crise, um pessimista antropológico, um realista; mas também – ou por isso mesmo – um “moralista”. Um moralista não pelo discurso e pela retórica, mas através da história concreta dos homens, que relata com vivacidade e objectividade.

No seu tempo, que sucede a um tempo de tiranos declarados e designados, vê desaparecer a capacidade de escrever com “eloquência e liberdade” e singrar a sujeição, ora ao “desejo apaixonado de louvar”, ora ao desejo apaixonado de rebaixar. Nessa alternativa diabólica entre o servilismo e o ódio, vê extremarem-se as partes e perder-se a realidade e a verdade.

Lucius Cornelius Tacitus (56-117) viveu durante as dinastias júlio-claudiana e flaviana até ao tempo do “bom imperador” Trajano, mas temos muito a aprender com ele, particularmente nesta nossa era de desinformação, entre um discurso servil e um discurso de ódio, feitos muitas vezes a partir de insuspeitos lugares “de referência” que, aparentemente, perderam a capacidade de informar com liberdade e objectividade.

Aprendi mais com Tucídides do que com Aristóteles; dos romanos, sempre achei Cícero demasiadamente retórico e jurídico e Suetónio suspeito em relação aos Césares; de Tito Lívio, só nos chegou o princípio da História de Roma, Ab urbe condita; e Salústio foi um péssimo governante. Mas Tácito, o autor dos Anais e das Histórias, deixou-nos quadros e retratos absolutamente fabulosos, popularizados pela série televisiva I Claudius, adaptada do romance de Robert Graves.

A história de Roma, primeiro da monarquia dos Tarquínios, depois da República das XII Tábuas, da guerra com Cartago, dos Cipiões, de Mário e de Sila (o autocrata que ficou famoso, antes de Pinochet, por sair do poder pelo seu pé) é uma história fascinante. O grego Políbio, Salústio e Lívio contam-na em livros onde, por vezes, o patriotismo e as conveniências predominam sobre a verdade. Escreve Tácito que “quando os interesses da paz exigiram que todo o poder passasse a ser concentrado nas mãos de um homem […] a verdade histórica foi prejudicada de muitas formas.”

Talvez por isso o alto funcionário e historiador Tácito comece por fazer a sua declaração de interesses, demarcando-se de Galba, Otão e Vitélio – os três efémeros imperadores militares do “ano terrível” de 69 – e filiando-se e ao seu começo de carreira em Vespasiano, o conquistador de Jerusalém, o fundador da nova dinastia dos Flávios. É daqui, e não do suposto lugar de isenção de um qualquer pivot informativo, que partem o seu esforço de objectividade e historicidade e a sua procura da verdade.

É um historiador de tempos difíceis, tempos em que a elite, a classe dominante e dirigente, vivia no medo de príncipes cruéis e manhosos, como Tibério, doidos, como Calígula ou Nero, sobreviventes discretos mas impiedosos, como Cláudio.

O Renascimento, com Maquiavel e Guicciardini, redescobriu Tácito; na Reforma, os alemães releram-no por causa da Germania; as revoluções inglesa, americana e francesa citaram-no e recordaram-no.

É um autor de sempre, que escreve sobre os homens e as sociedades tal como são – coisa a que, infelizmente, já não estamos habituados, entretidos por uma legião de retóricos medianamente banais.

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