O meu amigo siciliano

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Numa recente viagem que fiz à Sicília, em Taormina, uma das mais bonitas cidades da costa oriental desta região italiana, por desencontros na procura de alojamento, desemboquei em casa de um simpático casal, em que o marido era médico e quadro superior de uma importante unidade de saúde. Inevitavelmente falámos sobre Portugal e ele disse-me: “Ah, o vosso país está muito bem, em termos económicos”. Constatei que a avaliação deste meu improvável amigo coincidia com a velha realidade: “Portugal está bem, mas os portugueses estão mal”. Esclareci-o sobre alguns aspectos da nossa realidade social, como as dificuldades na habitação, os problemas da saúde, a falta de professores, os baixos salários, as questões demográficas”.

Quando regressei a Portugal tinha aterrado no olho do furação mediático. Por cá era o caos político. Na discussão orçamental nada tinha evoluido e a narrativa tinha agora caído em aspectos marginais e longe da matéria orçamental que seria lógico fosse o objecto da reflexão dos principais agentes políticos. Quanta imaturidade, quanto tempo desperdiçado com o insulto, quanto desgaste em questões marginais que nada têm a ver com as medidas inscritas no Orçamento de Estado. Às vezes espanta-me que a classe política, não tenha justificadas preocupações com o que, verdadeiramente, está em jogo. Os muitos milhões do PRR que temos de executar dentro dos prazos estabelecidos pelas instituições europeias. Ou a periclitante situação internacional que nos coloca, a todos, na corda bamba. Ou o tanto que há para arrumar neste país onde as fragilidades sociais nos saltam aos olhos.

No meu regresso constatei, ainda, que o disparate tinha crescido. Ele era uma absurda conversa sobre auriculares, ou as tentativas desesperadas do líder socialista em condicionar a narrativa discursiva dos seus companheiros partidários. Uma atitude desesperada de Pedro Nuno Santos ao qual já não restava outra alternativa que não fosse tentar o alinhamento discursivo dos seus correligionários como suporte dos disparates que tem andado a dizer na discussão orçamental. Pedro Nuno Santos, neste processo da discussão do Orçamento de Estado, conseguiu enredar-se de tal modo na sua própria narrativa que, no fim da linha, isso pode custar-lhe o cargo de secretário-geral do PS. Nesse aspecto o mais díficil já está feito. Provocou uma divisão profunda nas hostes socialistas que pode deixar marcas insanáveis para o futuro. Imagino que, justificadamente, José Luís Carneiro possa estar à espreita!

Mas no meu regresso constatei algo ainda mais preocupante. Afinal o tal valor de crescimento do PIB que a Aliança Democrática tinha prometido na campanha eleitoral de 3,4% está em risco. Esse valor, previsivelmente, é de 2,1% em 2025, 2,6 % em 2026, portanto muito baixo dos prometidos 3,4%. E isto, sim, é preocupante atendendo a que precisamos, desesperadamente, de um crescimento do PIB que nos dê folga suficiente para mais investimento e uma maior disponibilidade financeira para os compromissos sociais do Estado.

De facto o meu improvável amigo siciliano conhece mal Portugal. Tem uma vaga ideia, macroeonómica, de que a nossa dívida esteve (ou está) numa trajectória descendente e os juros num valor sustentável. Ou seja, poderá saber alguma coisa sobre Portugal, mas pouco ou nada sobre os portugueses. Mas foi bom ter tropeçado nesta nova amizade siciliana. Ela recordou-me o que ainda nos resta de bom e fez-me esquecer, momentâneamente, a imensidão dos problemas que ainda temos por resolver. Se conseguir, um destes dias volto de novo à Sicília para conversar com o meu amigo siciliano. Faz bem ao ego ouvirmos elogios e esquecermos as desgraças.

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