O embate inevitável entre Israel e o Hezbollah

Publicado a
Atualizado a

Estive na fronteira de Israel com o Líbano em finais de junho, numa colina perto de Mitzpe Hila, a uns oito quilómetros em linha reta das posições do Hezbollah. Dois tenentes-coronéis explicavam a situação no terreno e garantiam, já na altura, que uma operação militar estava iminente. E o tom era de ameaça clara, não só à milícia xiita que desde 7 de outubro dispara rockets  contra Israel em solidariedade com o Hamas, como também ao Estado libanês, incapaz de impor a sua autoridade ao Hezbollah, que além de grupo armado é um partido político que põe e dispõe no país. Recordo que ninguém em Israel, militares ou civis, parecia chocado com a ameaça do ministro da Defesa, Yoav Gallant, de “devolver o Líbano à Idade da Pedra” se o Hezbollah não parasse.

Os bombardeamentos ontem da aviação israelita contra 1300 alvos no Líbano não correspondem à ameaça de destruição total, nem sequer à de “arrasar Beirute” que também ouvi, sobretudo da gente no norte de Israel que não esquece que foram dezenas de milhares os habitantes obrigados a deixar as suas casas. Mas causaram mais de 350 mortos, segundo contabilizou o Ministério da Saúde do Líbano. E se muitos serão operacionais do Hezbollah, grupo que os EUA e a UE consideram terrorista, também há bastantes vítimas civis, pois nenhuma guerra é verdadeiramente cirúrgica. Sobretudo, se, como acontece também com o Hamas em Gaza, a estratégia de combate a Israel passa por se camuflar o mais possível com a população, no caso do Líbano multirreligiosa e muito dividida no que pensar da milícia.

É velho o ódio entre o Hezbollah e Israel. Vem do tempo da Guerra Civil libanesa,  manipulada pelas potências vizinhas ao ponto de ser tão natural nascer uma milícia armada apoiada pelo Irão como Israel ignorar a fronteira com o seu vizinho do norte e avançar com as suas tropas até Beirute. Um ódio que se aprofundou quando Israel retirou finalmente do Líbano levando a uma reivindicação de vitória do Hezbollah, e se aprofundou ainda mais durante a guerra israelo-libanesa de 2006, que terminou com um acordo patrocinado pela ONU e subscrito por ambos os Governos, prevendo o desarmamento do Hezbollah para evitar incursões para matar e sequestrar soldados israelitas.

Depois do massacre de mais de 1200 israelitas pelo Hamas a 7 de outubro, o ódio mútuo voltou ao de cima, com o movimento xiita libanês a atacar em solidariedade com os palestinianos, e Israel a retaliar, obrigando também 100 mil libaneses a fugir do sul do país. Agora, há vários milhares mais em fuga.

Este ódio entre Israel e o Hezbollah tem, porém, de ser entendido num contexto do Médio Oriente, em que se cruzam jogos de influências das grandes potências, interesses nacionais, tensões étnicas e competição religiosa, até dentro do Islão, que é maioritário. Não faltam nesse contexto alianças contranatura, abandonos e até traições. O certo hoje, pode ser errado amanhã.

Ora, o que é certo desde o 7 de Outubro, que além dos 1200 mortos viu o Hamas levar mais de 200 reféns para a Faixa de Gaza, é o risco de uma guerra alargada no Médio Oriente.

Não por acaso, apesar de todo o poderio bélico de Israel, os Estados Unidos deram então ordens imediatas para um dos seus porta-aviões se deslocar para o Mediterrâneo Oriental. O receio foi que perante a fragilidade mostrada por Israel face ao massacre planeado por Yahya Sinwar, o líder do Hamas, outros países ou grupos inimigos aproveitassem para atacar.

E, de facto, essa era a esperança de Sinwar, garantiu-me num encontro em Telavive Zohar Palti, antigo dirigente da Mossad: “A ideia de Sinwar era incendiar o Líbano, que o Hezbollah se juntaria ao Hamas, numa guerra a 100%, em grande escala. Revolta também na Cisjordânia. E entre os árabes-israelitas. E, claro, ainda o Irão, os houthis e as milícias xiitas do Iraque. Teve êxito com os houthis, teve sucesso com as milícias xiitas, digamos em 30% ou 40% teve sucesso com o Hezbollah, no Líbano, mas ainda não em grande escala. E falhou com a Cisjordânia, e sobretudo falhou com os árabes-israelitas, graças a Deus.”

Opinião idêntica, quase premonitória no que diz respeito à evolução no Líbano, foi-me expressa por Ehud Yaari, analista político do Canal 12, especialista em Geopolítica, numa conversa em Jerusalém: “A segunda frente, o Líbano, não se desenrolou da forma prevista ou esperada, porque Nasrallah, o líder do Hezbollah, depois de muita hesitação, decidiu optar por uma troca restrita de golpes ao longo de uma estreita faixa da fronteira israelo-libanesa. Eu próprio nasci na aldeia mais a norte de Israel, uma espécie de aldeia alpina, que está agora meio destruída e, claro, evacuada. Mas Nasrallah decidiu que não vai dar tudo de si neste momento, e certamente não por causa de Gaza. E agora o chefe do Hezbollah está preocupado com a possibilidade de os israelitas retirarem forças de Gaza para reforçar as que temos no norte, e a Força Aérea ser dispensada da maior parte de suas tarefas em Gaza, e teme que haja uma grande vaga de ataques no Líbano.”

A duas semanas de se assinalar o aniversário do ataque do Hamas, e tendo em conta a persistência dos disparos do Hezbollah, esta ofensiva israelita no Líbano é, portanto, tudo menos surpreendente. Se há pressão de parte da opinião pública para Benjamin Netanyahu negociar com o Hamas para tentar libertar mais reféns e acabar com uma guerra em Gaza que já matou mais de 40 mil palestinianos, em relação a uma resposta ao Hezbollah, o sentimento generalizado, pelo que ouvi, é que os disparos sobre o norte do país têm de parar, a bem ou a mal.

Contudo, estará Israel a correr demasiados riscos ao abrir uma nova frente de guerra numa altura em que cresce o criticismo internacional, incluindo nos Estados Unidos, por causa da mortandade em Gaza? Contará Netanyahu com o apoio inequívoco de Joe Biden se o Irão do ayatollah Khamenei decidir vir em socorro dos seus aliados libaneses, liderados por Hassan Nasrallah? Como se posicionarão os países árabes que mantêm relações com Israel (Egito, por exemplo) ou caminhavam para isso (Arábia Saudita) se houver uma escalada no Médio Oriente? Há ainda alguma hipótese de salvaguardar o direito à segurança de Israel, conciliando-o com o direito dos palestinianos a um Estado sem, por causa de interesses conflituantes, tudo isto degenerar numa grande guerra? Nem todas as respostas são óbvias: no Médio Oriente sabe-se como começa algo, nunca se sabe como acaba. Pode sempre ficar pior.

Diretor adjunto do Diário de Notícias

Diário de Notícias
www.dn.pt