O Conselho de Ministros extraordinário desta semana, que decorreu no Entroncamento, voltou a colocar a política de mobilidade e transportes nos carris. Em boa hora, porque este é um dos setores que mais impacta o quotidiano dos portugueses e das empresas, com a agravante de ser simultaneamente um dos mais difíceis de descarbonizar..O elogio que hoje aqui deixo ao ministro das Infraestruturas, Miguel Pinto Luz, tem um antecedente. Há cerca de um mês, escrevi neste espaço uma crónica onde criticava o aparente imobilismo do atual e do anterior governos numa matéria específica da mobilidade, com o enfático título “OE e veículos: incentivos congelados, metas comprometidas”. A minha preocupação à data está hoje mitigada pelo pacote apresentado no Entroncamento..Não porque isso seja a fórmula salvífica para todos os problemas, mas pela simples razão de que coloca na agenda política um tema crítico, ainda por cima com um conjunto de medidas de inegável alcance e qualidade. .Quem estuda o tema da transição para uma mobilidade verde sabe que há duas linhas de ação incontornáveis: a transferência modal e a melhoria da eficiência energética nas motorizações. Em ambos os casos, podemos encontrar medidas muito positivas no pacote apresentado pelo governo..A transferência modal é a capacidade de fazer com que as viagens em modos de transporte menos sustentáveis se passem a realizar em modos mais sustentáveis, nomeadamente através do transporte público coletivo e dos modos suaves. Este desígnio reclama incentivos aos potenciais utentes, pelo que se saúda o alargamento do passe social+ a mais cidadãos, o passe ferroviário verde, o bilhete único, o impulso na implementação da Estratégia Nacional para a Mobilidade Ativa, o desenvolvimento dos planos de mobilidade sustentável urbana ou o reforço do Fundo de Transportes. .Embora não defenda um princípio de gratuitidade indiscriminada nos transportes, que de resto já provou dar maus resultados noutras experiências além-fronteiras, o alargamento da gratuitidade a todos os jovens até aos 23 anos poderá ter um papel importante na fidelização, nestas idades, ao transporte público..Já sobre a melhoria energética na motorização dos veículos, o governo desbloqueou finalmente o incentivo à aquisição de veículos elétricos, tendo por contrapartida o abate de veículos com mais de 10 anos..A novidade deste pacote de medidas é o apoio à descarbonização do transporte de mercadorias, quer na aquisição de veículos de emissões nulas, quer na promoção de projetos piloto de logística urbana, quer ainda na limitação do aumento da taxa de utilização da infraestrutura ferroviária..Sendo boas notícias, constituem apenas o início de um caminho que é preciso percorrer com firmeza. E que nos faz recordar que há mais país e mais política pública para além do Orçamento do Estado.