Quando o New York Times recomenda Almaty como um dos destinos turísticos a não perder em 2024 e o Astana Times noticia que quase um milhão de turistas estrangeiros visitou o Cazaquistão em 2023, é possível dizer que os protestos violentos de janeiro de 2022 são em grande medida já um acontecimento distante e que a maior das antigas repúblicas soviéticas da Ásia Central voltou ao caminho de sucesso que tem marcado o seu destino desde que ganhou a independência em 1991. Aliás, o país das estepes ganhou até renovado interesse geopolítico por causa da forma inteligente como soube potenciar a sua diplomacia multivectorial num momento em que a guerra na Ucrânia põe a Rússia (e de certo modo a China) em choque aberto com o Ocidente. .A prova dessa renovada relevância internacional foram nos últimos meses as visitas a Astana de estadistas europeus como o francês Emmanuel Macron ou o alemão Frank-Walter Steinmeier, também a cimeira Estados Unidos-Ásia Central que Joe Biden acolheu em setembro, tudo isto sem prejuízo dos contactos habituais do Cazaquistão e seus líderes com Rússia e China, os dois grandes vizinhos, incontornáveis..É, pois, muito interessante que o presidente Kassym-Jomart Tokayev se mostre o grande interessado em que os cazaques não esqueçam esses dias de violência, iniciados a 2 de janeiro e com final só a 11, faz hoje exatamente dois anos. E numa recente entrevista, Tokayev falou do sucedido, descrevendo os motins que causaram mais de 200 mortos, incluindo membros das forças de segurança, como uma tentativa de golpe de Estado, mesmo que tudo tenha começado como protesto pacífico contra um forte aumento do preço dos combustíveis num país que é um grande exportador de petróleo e de gás natural. .“Os trágicos acontecimentos de janeiro foram causados por muitos anos de problemas socioeconómicos não resolvidos e de estagnação geral, que se transformaram na degradação tanto das autoridades como da sociedade. Isto era visível a olho nu”, afirmou Tokayev em entrevista ao Egemen Qazaqstan. E acrescentou: “Após a minha eleição como presidente em 2019, foi traçado um rumo para a democratização do sistema político, a liberalização da vida pública e a desmonopolização da economia. Os ativistas públicos, juntamente com peritos, têm participado na implementação das reformas. Muitas iniciativas foram elaboradas em várias plataformas de diálogo, incluindo as reuniões do Conselho Nacional de Confiança Pública, que criei. Este novo rumo provocou uma forte rejeição por parte de indivíduos influentes que o consideravam uma ameaça à situação profundamente enraizada no país e ao seu estatuto privilegiado nas estruturas de poder. A sua resistência às reformas foi aumentando gradualmente. No final, decidiram tomar medidas extremas para inverter as mudanças e restabelecer a ordem anterior”. Prosseguiu ainda o presidente: “Este grupo de altos funcionários tinha uma enorme influência sobre as forças de segurança e os criminosos, pelo que foi escolhida a opção de organizar uma tomada violenta do poder. Os preparativos começaram por volta de meados de 2021. Posteriormente, o Governo tomou uma decisão irrefletida e ilegal de aumentar drasticamente o preço do gás liquefeito, o que levou a manifestações na região de Mangistau, instigadas por provocadores. Sob as minhas instruções, o Governo constituiu uma comissão especial, que se deslocou à região para se reunir com representantes da população e tomar uma decisão de compromisso. No entanto, os protestos assumiram um carácter extremista, que os conspiradores exploraram. O inquérito revelou que os acontecimentos de janeiro se desenrolaram segundo um padrão de "onda". Inicialmente, registaram-se manifestações na região de Mangistau, que mais tarde se estenderam. Apesar dos esforços das autoridades centrais e locais, a situação no país desestabilizou-se. As negociações e o diálogo destinados a encontrar soluções de compromisso não foram apoiados pelos organizadores da manifestação. Os confrontos começaram em muitas regiões. Tudo estava sob o controlo dos conspiradores que, através de pessoas especialmente treinadas, encorajaram a escalada da situação. Mas, mesmo numa situação tão difícil, as forças da segurança evitaram o uso da arma. Esta foi a segunda vaga”. A chamada terceira vaga, ainda segundo Tokayev, “começou quando os grupos criminosos, cujos líderes eram controlados pelos conspiradores e tinham contactos com terroristas, incluindo de fora do país, se envolveram. Utilizando tecnologias especiais, provocadores e bandidos transformaram protestos pacíficos em motins em massa, acompanhados de violência em grande escala, pogroms, fogo posto e destruição de propriedade. No meio do caos, bandidos armados e terroristas, seguindo um único comando, atacaram simultaneamente os edifícios das autoridades, as lojas de armas, os arsenais das forças da ordem e as unidades militares. Esta situação ocorreu não só em Almaty, mas também numa série de centros regionais. Recordo que foram roubadas mais de três mil armas, incluindo espingardas automáticas, metralhadoras e até lança-granadas. Além disso, foram atacadas infraestruturas de transporte e instalações de telecomunicações. É crucial notar que os bandidos e os terroristas atuaram de forma organizada. Extremistas, criminosos e radicais religiosos colaboraram na tentativa de golpe de Estado. O seu objetivo era espalhar o medo entre os cidadãos, desorganizar as instituições do Estado, minar a ordem constitucional e, por fim, tomar o poder”..Na extensa entrevista onde reforça a narrativa oficial dos motins, o presidente cazaque revelou que chegou a ser aconselhado a deixar a residência oficial no palácio Akorda, em Astana, e até houve quem falasse da sua saída do país, mas que perante a ameaça do caos triunfar, a escolha óbvia era ficar e lidar com o desafio, e que deixou isso bem claro à população numa comunicação televisiva. Também fez questão de dizer que o apelo para o envio de forças de manifestantes da paz foi feito à Organização do Tratado de Segurança Coletiva e não à Rússia, com tropas enviadas por vários países, incluindo numerosos soldados russos, mas também arménios, bielorrussos, tajiques e quirguizes. E que quando chegaram já a situação estava controlada, tendo desempenhado sobretudo um papel dissuasório de ataque a infraestruturas, com a retirada a acontecer ao fim de poucos dias..O presidente abordou igualmente o problema do chamado sistema de duplo poder, pois o seu antecessor, Nursultan Nazarbayev, retirou-se formalmente em 2019, mas como pai da independência, com o título de Elbasy, era visto por alguns ainda como o verdadeiro líder. Tokayev, um diplomata que chegou a ser primeiro-ministro, admitiu na entrevista ter alertado o antecessor para os riscos dos jogos políticos daqueles que viam o velho líder (tem hoje 83 anos) como protetor dos seus interesses, preferindo antes desestabilizar o país do que aceitar as reformas de Tokayev, nessa primeira fase ainda bastante tímidas..Sobre a relação entre os dois homens, apesar de tudo salvaguardada após os motins, é revelador o que respondeu Tokayev a uma pergunta sobre o recente livro de memórias publicado por Nazarbayev, um político de grande carisma que quase levou o último líder soviético, Mikhail Gorbachev, a criar o cargo de vice-presidente para lhe oferecer: “Na minha opinião, este livro é intrigante enquanto crónica da construção da independência do Cazaquistão. Como diz um sábio ditado, as memórias são valiosas porque, mesmo que contenham apenas 50% da verdade, permitem-nos compreender a magnitude dos acontecimentos históricos. Nursultan Nazarbayev é uma figura histórica que testemunhou várias épocas. Começou a sua carreira durante a era de Nikita Khrushchev e demitiu-se mais de 60 anos depois. O seu contributo para a formação do Cazaquistão independente é evidente e merece uma avaliação histórica justa”. O atual presidente cazaque realçou gostar de ler memórias e ensaios políticos, mas sobre as suas próprias memórias surgirem um dia em livro, disse não ter tempo ainda para tal. Noutro momento, talvez, ficou subentendido..Ora, se Nazarbayev é incontornável para se entender o Cazaquistão, o nono maior país mundo, Tokayev está igualmente a deixar a sua marca, em alguns campos de clara continuidade - como a diplomacia multivectorial ou a coexistência pacífica de uma população multicultural, em que a etnia cazaque, muçulmanos de língua túrquica, representa dois terços dos 20 milhões de habitantes, e a maior minoria são os russos, cristãos eslavos, cerca de 15% -, noutros de rutura mais ou menos radical - como a diversificação da economia para reduzir a dependência das exportações de petróleo e gás ou a criação de um sistema político mais competitivo, que responda aos anseios de uma população que tem beneficiado de um constante progresso sócio-económico e que dá sinais de confiança no futuro através de uma pujança demográfica de fazer invejar qualquer país europeu ameaçado pelo envelhecimento: três filhos em média por mulher, mostram as estatísticas..As reformas políticas, acompanhadas também por legislação que visa proteger os direitos humanos, têm vindo a ser implementadas desde 2022, inclusive com um referendo constitucional, mas a avaliação por entidades internacionais do nível de democratização continua aquém das expectativas de Tokayev (no Índice da Economist faz pior do que a Mongólia, mas melhor do que o Uzbequistão ou a Rússia e também melhor do que a China). Ao nível da economia, os resultados positivos são mais evidentes, e explicam o vaivém de políticos e empresários em Astana. A União Europeia é o principal parceiro comercial, os Estados Unidos continuam a investir, e a China ganha protagonismo que permite equilibrar a tradicional relação próxima com a Rússia. .Na entrevista ao Egemen Qazaqstan, um jornal estatal com mais de um século, Tokayev fala do objetivo de duplicação do PIB até 2029, sendo que hoje o Cazaquistão é a 52.ª economia mundial, com 260 mil milhões de dólares, valor quase igual ao de Portugal. É uma meta ambiciosa, que exige uma economia aberta ao mundo e medidas ousadas, como a possibilidade de construir centrais nucleares, o que terá de passar por um referendo, como voltou a declarar o presidente, consciente da aversão de boa parte da população à ideia do nuclear, dada a experiência dramática de Semipalatinsk, o polígono no nordeste do país onde a União Soviética fez mais de 400 testes. Uma das heranças de Nazarbayev é a diplomacia anti-armas nucleares, que Tokayev não renega, mas querendo argumentar sobre as diferenças entre nuclear bélico e nuclear civil e o que o país tem a ganhar com este último: “a energia nuclear limpa é muito importante para o Cazaquistão. Trata-se de uma questão fundamental para o futuro da nossa economia”. Estamos a falar do país que é primeiro produtor mundial de urânio. .Sobre as relações com a Rússia e com a China, Tokayev fala de forma otimista, sublinhando as cimeiras tanto com Vladimir Putin como com Xinping, valorizando a paz e as perspectivas de cooperação económica, tradicionais com Moscovo e muito promissoras com Pequim. Mas a Putin, no passado recente, Tokayev tem feito questão de enviar sinais claros, como defender a integridade territorial da Ucrânia, invadida em fevereiro de 2022, não esquecendo que há uma década o próprio presidente russo questionava a tradição estatal cazaque, mesmo tendo havido um khanato entre os séculos XV e XIX. Para evitar críticas do Ocidente, também há a decisão de que o Cazaquistão não pode ser cúmplice da Rússia na fuga às sanções internacionais, mesmo que em mais um exercício de equilíbrio geopolitico o país se abstenha na ONU nas votações a condenar Moscovo. Já com a China, a preocupação do presidente cazaque é dizer que “não devemos alimentar quaisquer receios infundados ou basear-nos em noções ultrapassadas”, uma referência ao natural receio da população de uma crescente influência de um país de 1400 milhões de habitantes num de 20. E não esquecer que o grande inimigo histórico dos casaques foram os zungares, um povo, mesmo não sendo de etnia han, vindo do que hoje é a parte ocidental da China..Almaty, e regressando às recomendações do New York Times, é uma bela cidade para visitar, com uma atmosfera muito europeia e na vizinhança montanhas de beleza impressionante, cheias de neve no inverno. Mas não faltam maravilhas da natureza, além das estepes, naquele que é o nono maior país do mundo, e pessoalmente, depois de três reportagens no Cazaquistão, não posso deixar de recomendar uma visita à nova capital (substituiu Almaty em 1997), um exercício de modernidade arquitetónica, que em 2019 tinha sido rebatizada Nursultan, em homenagem ao pai da independência, e que voltou a chamar-se Astana, num evidente reflexo da nova realidade política pós-motins de janeiro de 2022, dos quais Tokayev, claramente, e à sua maneira, não quer que se esqueçam as lições, mesmo que o título da entrevista seja “sendo uma nação progressista, só devemos olhar para a frente”.