Sendo recorrentes os ataques do sistema ao Climáximo, há frequentes confusões apresentadas pelos proponentes que nunca rejeitámos. Anti-sistema, anticapitalista ou radical não é algo que alguma vez tenhamos escondido, mas pelo contrário afirmamos há anos. No passado dia 5 a consultora política Maria Castello Branco publicou no DN um artigo chamado “EgoMarxismo”. Como participante do coletivo há vários anos, venho clarificar os leitores e a própria autora sobre as suas confusões.Comecemos pelo básico. A crise climática não foi causada “pelo ser humano” em geral, como propõe. Foi causada por uma pequena mas poderosa fatia de seres humanos que, contra todos os avisos, empurrou toda a Humanidade para o colapso, em prol de acumulação de capital. Esse pequeno grupo continua a empurrar-nos, conscientemente, para o colapso. Falamos da elite que dirige o capitalismo global e que se protege com ferramentas de contra-informação e que criminaliza as lutas sociais e a luta por justiça climática.Atualmente, essa classe culpabiliza e ilude a sociedade enquanto utiliza o seu trabalho na destruição da vida. A classe política assiste, debatendo como lucrar com a situação, como incrementar pequenas melhorias numa civilização à beira do colapso ou enfiando a cabeça na areia. Todos sabem que travar a crise climática é possível. Tal requer um processo de transformação industrial e laboral em larga escala o que implica uma enorme transformação social - colocar a vida no centro da sociedade, ao invés do lucro. Isto é uma revolução. A inação dos políticos, que demonstram cobardia ou defesa do capital, cria um dilema à classe trabalhadora: se quem trabalha não travar o caos climático e não controlar pelas suas próprias mãos a transformação da economia, vai ser esmagado pelo capitalismo e pela crise climática. Isso já está a acontecer. Assim, ao contrário do que a consultora afirma, não são as propostas do Climáximo que esmagam a classe trabalhadora. Nós estamos a dizer às pessoas algo muito mais importante do que aquilo de que nos acusa: dizemos à sociedade que não pode delegar a resolução deste problema a outra entidade, que não pode só votar de quatro em quatro anos num outro grupo de pessoas que eventualmente pode cumprir aquilo que prometeu numa campanha e que está muito aquém do necessário. Não é um assunto do Climáximo. É um assunto de todas as pessoas. A discussão atual nas ruas é se as pessoas vão ou não delegar à elite o destino da sua vida. No Climáximo, que é uma organização aberta, não exigimos um comprovativo da classe social, sendo que podemos ser descritos como parte do precariado - a oscilante classe que sobe e desce entre o proletariado e a pequena burguesia, flutuando ao sabor das crises permanentes. Mas no Climáximo ninguém tem bunkers ou jatos privados. Os efeitos das medidas radicais e abruptas necessárias para travar o caos climático – que deixam o 1% assustado e as restantes pessoas mais protegidas – não têm comparação possível com o caos climático. Perceberá a consultora que caos climático significa o fim do ciclo agrícola e acesso a água potável? De que “dano económico” está a falar Castello Branco se a comparação é a inabilitabilidade de nações inteiras? Sobre os riscos da acção política não-institucional, reconhecemos que vivemos numa sociedade racista, machista e homofóbica, em que quem não é um homem branco e heterossexual é frequentemente privada de direitos básicos como o direito ao protesto. As pessoas que colocam o seu corpo na linha da frente, bloqueiam estradas ou prendem-se em viadutos expõem-se a violência física, moral e sexual, nos protestos, nas esquadras e nas redes sociais. As pessoas racializadas que se colocam nesse situação - no Climáximo e no movimento pela justiça climática – enfrentam ainda mais riscos. Lutamos contra todas as formas de opressão. Reconhecemos os riscos tomados pelos nossos companheiros no Uganda - presos indeterminadamente por manifestarem-se – e camaradas indígenas assassinadas em bloqueios de estrada no Panamá. Corrermos menos riscos do que as comunidades mais afetadas implica fazermos mais, não menos. Não é um “luxo” agir, é um dever.Finalmente, na mais ligeira crítica à decisão de avançar para a catástrofe climática, a consultora analisou que “nenhum dos participantes da COP28 apresentou algo”. Falhou em compreender o motivo e consequência desta afirmação, tentando, ironicamente, fazer um ataque “de classe” dirigido a nós. Há uma decisão da elite capitalista coerente com o colapso. A ginástica ideológica de uma liberal de utilizar Marx para justificar a inação é admirável.Há seis meses atrás, depois de anos de atividade políticas em todos os níveis - do institucional ao ativismo urbano e rural, do académico, campanhas, ocupações, congressos, invasões, etc. - as consultoras políticas do país podiam fingir ignorar a existência do nosso movimento que não é nem nunca foi ambientalista, mas sim de justiça climática. Hoje, já não podem fingir. Más notícias para eles: isto ainda agora começou. Nós não acreditamos nem nunca acreditámos que um punhado de manifestações no ocidente travarão a crise climática. A única coisa que o pode fazer neste momento é um enorme processo revolucionário internacional. Do qual nós faremos parte.