Há poucas semanas, com chancela da Dom Quixote, surgiu a reedição portuguesa de Seis Propostas para o Próximo Milénio, de Italo Calvino (a tradução de José Colaço Barreiros foi publicada originalmente pela Editorial Teorema, em 2002). O livro reúne os textos de um ciclo de seis conferências que o autor preparou, em 1984, a convite da Universidade de Harvard, apostando em especular sobre a vida (ou a morte) dos valores literários no século XXI. Calvino não chegou a viajar para os EUA, falecendo a 19 de setembro de 1985, contava 61 anos. Os textos seriam publicados em Itália (e também em França, por exemplo) com o título Lições Americanas, servindo Seis Propostas para o Próximo Milénio como subtítulo - a edição portuguesa adota uma solução inversa..As seis conferências apresentam-se com designações breves e sugestivas: “Leveza”, “Rapidez”, “Exatidão”, “Visibilidade”, “Multiplicidade” e “Consistência”. Seja como for, não existe um capítulo intitulado “Consistência”, já que Calvino não chegou a concluir esse texto derradeiro: depois de cinco conferências, surge um apêndice, “Começar e Acabar”, que corresponderia à primeira sessão do ciclo, embora contendo “grande parte do material” destinado à lição final..As conferências foram concebidas num contexto de pensamentos cruzados sobre a sobrevivência da própria literatura: “Talvez o sinal de que o milénio está a encerrar-se seja a frequência com que nos interrogamos sobre a sorte da literatura e do livro na era tecnológica chamada pós-industrial.” Em qualquer caso, Calvino não pretende fazer “previsões”. Aquilo que realmente o interessa decorre de uma dedicação tenaz à causa literária: “A minha confiança no futuro da literatura consiste em saber que há coisas que só a literatura com os seus meios específicos pode dar-nos.”.Gustave Flaubert fotografado por Félix Nadar (c. 1869)..A valorização desses “meios específicos” é tanto mais atual quanto passámos a ouvir um número crescente de autores e comentadores de obras literárias a reduzir as aventuras da escrita a ilustrações de “temas” a que é atribuída uma importância “social” que dispensaria qualquer atenção às linguagens de cada obra. Em boa verdade, a consagração desse determinismo pueril, empolado por alguns discursos televisivos, está a contaminar muitas formas de abordagem de outras narrativas, nomeadamente cinematográficas. Poderá mesmo haver quem se atreva a sugerir que as banalidades proferidas por um concorrente do Big Brother sobre a sua vida “amorosa” pertencem ao mesmo universo do legado de Sigmund Freud - não estão ambos a falar sobre o “tema” da sexualidade? Pior um pouco, sugere-se que o modo como acaba uma história (o herói morre ou não morre?) esgota o “sentido” da obra. Ora, como refere Calvino, recordando Hans Castorp (A Montanha Mágica, Thomas Mann), a existência de um “final indeterminado” está longe de ser uma limitação da escrita. Vale a pena, a esse propósito, uma citação um pouco mais longa:.“O problema de não acabar uma história é este. Seja como for que ela acabe, seja qual for o momento em que decidimos que a história pode considerar-se acabada, verificamos que não é para esse ponto que conduzia a ação do contar, que o que conta está noutro sítio, é o que aconteceu antes: é o sentido que adquire esse segmento isolado de acontecimentos, extraído da continuidade do contável. É certo que as formas narrativas tradicionais dão uma impressão de obra concluída: o conto termina quando o herói triunfou das adversidades, o romance biográfico encontra o seu final indiscutível na morte do herói, o romance de educação quando o herói atinge a maturidade, o romance policial quando o culpado é descoberto. (…) O final realmente importante é o que como n’A Educação Sentimental põe em discussão toda a narração, a hierarquia de valores que preside ao romance.”.Esta evocação do romance de Gustave Flaubert afigura-se tanto mais pertinente quanto a actual cultura mediática inculca-nos todos os dias a “ideia” segundo a qual lidar com qualquer narrativa é encerrá-la automaticamente numa significação única, unívoca e definitiva - da política ao futebol, a “análise” segue-se de imediato ao facto vivido (quando não antecipa os seus sentidos), anulando o tempo de apreensão e bloqueando o próprio tempo de reflexão..No limite, cada um de nós, cidadão e espectador, é levado a supor que o sentido da sua existência está disponível em cada instante, como um alinhamento noticioso que se satisfaz com a ilusão de congelar o tempo. Fiquemos, por isso, com mais algumas palavras de Calvino, do capítulo “Multiplicidade”: “Cada vida é uma enciclopédia, uma biblioteca, um inventário de objectos, um catálogo de estilos, onde tudo pode ser continuamente remexido e reordenado de todas as maneiras possíveis.”