A purga militar chinesa

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Uma das características do comunismo e dos regimes comunistas - os “socialismos reais”, tão embaraçosos para o “campo socialista” pelas flagrantes contradições que apresentam com a doutrina - são as chamadas “purgas”, a limpeza ou purificação dos elementos que se transviam.

O sistema tem semelhanças históricas com as actividades inquisitoriais, embora o número de vítimas das purgas comunistas seja infinitamente superior ao da Inquisição e os processos mais expeditos e com menos garantias para os acusados. As mais famosas vieram depois do assassinato de Kirov, em 1934, quando, entre 1936 e 1938, Estaline varreu do partido (e deste mundo) elementos que lhe eram hostis ou de que apenas suspeitava, culminando nos “Processos de Moscovo”, em que foram acusados, humilhados e mortos “velhos bolcheviques”, como Zinoviev e Kamenev.

E a par desses notáveis, milhões de intelectuais, académicos, tecno-burocratas, militares, operários, agricultores, foram detidos, torturados, executados sumariamente, ou mandados para os campos de trabalho do “Arquipélago Gulag”, onde muitos morreram.

A verdade impopular, frequentemente disfarçada, mas indisfarçável, é que o terror é inerente à máquina comunista; era, por isso, fatal que o método se repetisse na Alemanha Oriental, na Polónia, na Hungria, na Roménia, na Bulgária e nos países bálticos onde, entre 1945 e 1948, os soviéticos puseram no poder os partidos comunistas locais.

Os alvos das purgas eram inevitavelmente os “fascistas”, “os “anticomunistas”, os “desviacionistas”, “os latifundiários” e outras categorias - ideológicas ou de classe - a abater.

A China, onde os comunistas de Mao tomaram o poder em 1949, foi teatro das mais sinistras purgas, pelos métodos e pelo número de vítimas, quer na Revolução Cultural quer no “Grande Salto em Frente”.

Tudo isto vem a propósito da recente purga entre os altos comandos militares na República Popular da China.

No passado 24 de Janeiro os generais Zhang Youxia e Liu Zhenli foram oficialmente postos “sob investigação”. Ora quer Zhang quer Liu pertenciam à Comissão Militar Central (CMC) do Exército Popular de Libertação (EPL). E Zhang, vice-presidente da CMC, era um velho amigo e aliado de Xi Jinping.

As acusações são de “corrupção”: já em Junho de 2024, o ministro da Defesa, Li Shangfu, e o seu antecessor, Wei Fenghe, tinham sido demitidos pelo mesmo pecado, juntamente com um outro general e um outro almirante.

De qualquer modo, o caso de Zhang é o mais perturbador: Zhang é amigo de infância e colaborador de longa data do presidente Xi, sendo que os pais, ambos dirigentes históricos do partido, já eram também amigos próximos. A linguagem e o método de limpeza são os tradicionais na China: os agora suspensos deixaram de aparecer desde 22 de Dezembro porque, “traíram a confiança do Partido e a responsabilidade neles depositada”, causando “grande prejuízo” à estrutura político-militar.

Assim, na CMC do EPL resta um militar - Zhang Shengmin. Se pensarmos que em 2010 Xi tinha lá 22 militares, facilmente concluímos que se tratou de uma purga a sério, embora já sem a brutalidade estalinista ou maoista. Aparentemente, os purgados estão, por agora, vivos, com saúde e em liberdade (ainda mais) vigiada.

O que mais nos deve interessar aqui é saber a influência que estas acusações de corrupção e esta purga vão ter no destino de Taiwan, a “outra China” que a nova doutrina estratégica trumpiana menciona expressamente como área a proteger. Washington e Pequim mantêm diálogo através dos ministros da Defesa Pete Hegseth e Dong Jun; e a viagem de Trump à China, para se encontrar com Xi, está marcada para o próximo mês de Abril.

Politólogo e escritor

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

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