A relação transatlântica atravessa a sua maior crise estratégica desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Durante décadas, a segurança europeia assentou num pacto simples onde os Estados Unidos garantiam a proteção militar e nuclear da Europa Ocidental e os europeus asseguravam estabilidade política, integração económica e alinhamento geopolítico. Esse equilíbrio consolidou a NATO e permitiu aprofundar a construção europeia. Nesse quadro, importa recordar que a única vez em que a NATO acionou o mecanismo de defesa coletiva foi para apoiar os Estados Unidos após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001. Os aliados europeus participaram em operações e compromissos militares, assumiram custos políticos e humanos e demonstraram solidariedade estratégica com Washington. Quando foi necessário, a Europa mobilizou-se para a defesa da América. Hoje, esse modelo está sob pressão crescente e poucos episódios ilustram melhor esta transformação do que as declarações de Donald Trump sobre a Gronelândia. A hipótese de recurso a pressão política, económica ou mesmo militar sobre um território pertencente ao Reino da Dinamarca, aliado fundador da NATO, produziu um choque profundo nas capitais europeias. O episódio obrigou a Europa a confrontar uma pergunta até há pouco impensável: até que ponto os Estados Unidos continuam a ver os aliados europeus como parceiros estratégicos? É neste contexto que ganha novo significado a aproximação estratégica gradual entre os discursos francês e alemão em matéria de defesa. Em março de 2026, na base nuclear da Île Longue, Emmanuel Macron defendeu o aprofundamento da dimensão europeia da dissuasão nuclear francesa e a necessidade de reforçar a autonomia estratégica europeia. A Europa começou a reconhecer os riscos de uma dependência exclusiva da proteção americana. O sinal alemão é igualmente relevante. Na 13.ª Conferência Adenauer, em Berlim, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Alemanha defendeu uma política externa e de segurança europeia mais eficaz, uma maior capacidade de ação estratégica da União Europeia e a possibilidade de grupos de países avançarem mais rapidamente em matéria de defesa e segurança. A mensagem de Berlim representa uma mudança histórica. Desde 1945, a Alemanha construiu a sua identidade internacional sobre contenção militar, integração europeia e dependência estratégica norte-americana. Hoje, esses pilares estão a ser revistos. A guerra na Ucrânia e a crescente incerteza estratégica aceleraram essa transformação. A combinação destas dinâmicas pode transformar a arquitetura de segurança europeia. A França oferece capacidade nuclear, cultura estratégica e experiência militar. A Alemanha oferece escala económica, financiamento e capacidade industrial. Em conjunto, os dois países dispõem da massa crítica necessária para liderar uma defesa europeia mais autónoma, ainda que articulada com a NATO. O que hoje se desenha não é apenas uma reorganização militar. É uma alteração histórica do equilíbrio político do Ocidente. Pela primeira vez desde 1945, a Europa prepara-se seriamente para a possibilidade de ter de garantir, por si própria, uma parte decisiva da sua segurança. Paradoxalmente, uma Europa militarmente mais capaz poderá ser a condição necessária para preservar a própria Aliança Atlântica. A solidariedade atlântica (ainda) não desapareceu. Mas deixou de poder ser tratada como uma certeza automática. E quando a segurança deixa de ser certa, a autonomia deixa de ser uma opção ideológica e passa a ser uma necessidade estratégica.