Advertência: este texto é sobre música, mas vai começar com uma ideia inesperada, neste espaço previsivelmente dedicado a sons. Não é não. Esta frase, sobre consentimento, dita e repetida vezes sem conta, ganhou uma nova dimensão esta semana com um comentário proferido por uma apresentadora de televisão que desvalorizou uma violação de uma menor por quatro rapazes, destacando que, quando “estão naquela adrenalina de estar a fazer sexo com uma rapariga” – não era sexo, era uma violação – não conseguem ouvir o “não”. “Alguém ouve – claro que tem de ouvir –, mas alguém entende aquele ‘não quero mais’?”, questionou a apresentadora, de forma retórica. Vou repetir parte do que ela disse: “Claro que tem de ouvir.” Isto já deveria ser evidente, mas não é. Aos meus leitores, quero, nesta fase, reiterar que este texto é sobre música, porém, tendo em conta que a música é sobre pessoas e as suas histórias, quero que hoje seja também sobre mulheres.No Parlamento, está ainda patente – só até hoje – uma exposição intitulada O voto feminino em Portugal. Não é surpreendente, mas lembra que até 1974 (salvo algumas exceções, que até revelaram erros administrativos, como aconteceu com Carolina Beatriz Ângelo), as mulheres não puderam votar livremente por sufrágio universal direto. Por isso, esta insistência no papel das mulheres na democracia (ou em qualquer regime) tem de continuar, até que não seja preciso fazê-lo. Por agora, é preciso fazê-lo.Vivaldi, Bach, Bruckner, Liszt, Telemann, Dufay e especialmente Schumann. Todos estes nomes de família pertencem a compositores de vários períodos, e uma parte considerável das pessoas, mesmo não apreciando música antiga ou clássica ou romântica, admite que já ouviu - e consequentemente trauteou – excertos de músicas escritas por eles. Estes nomes têm também em comum o facto de serem de homens, ainda que haja uma rasteira nesta observação. Schumann, não era só o nome de Robert Schumann, mas também da sua mulher, Clara, que era tão ou mais pródiga do que o marido no que diz respeito a música, seja composta ou interpretada.. Arrisco a dizer que não há muita gente que esteja a ler este texto que conheça o trabalho de Clara Schumann, mas não será por falta de mérito dela. Apesar de ser mulher e de ter nascido em 1819, numa altura em que provavelmente seria uma grande ousadia para uma mulher ser uma estrela internacional, Clara terá sido incentivada pelo marido a tocar, a compor e a melhorar a técnica.Clara e Robert enfrentaram alguma resistência por parte do pai dela, que não via Robert como um homem capaz de dar à sua filha a vida que ele considerava que ela merecia. E aqui é revelado um dos aspetos centrais desta retórica distorcida, porque Clara, se tivesse nascido noutra época, de preferência mais progressista, talvez pudesse ter dado a Robert uma vida que no século XIX só um homem poderia dar a uma mulher.Clara acabaria por ter oito filhos com Robert, ainda que isso tivesse implicado um esforço gigantesco para poder conciliar a maternidade com os palcos. Arrisco dizer – e é um risco absurdo, porque parece-me evidente – que cuidar dos filhos não é uma tarefa exclusiva das mulheres, mas talvez isso tenha influenciado o desconhecimento que muita gente pode ter da obra de Clara Schumann. Foi mãe de oito crianças e foi música prodigiosa.O pai de Clara, Friedrich Wieck, era professor de piano e crítico musical. Treinou a filha e também a incentivou, desde muito cedo, a tocar. Aos 9 anos, esta criança-prodígio já dava concertos e fazia digressões pela Europa. Foi, aliás, neste contexto que viria a conhecer Robert, que foi aluno de Friedrich. Foi por isso, aliás, que Friedrich tentou mesmo impugnar a relação entre Robert e Clara. Foi com recurso a uma batalha judicial que ambos acabariam por se casar legitimamente.."O que é que é preciso acontecer no mundo para que haja respeito pelas mulheres?".Mas Clara, para um vasto público, continua a ser desconhecida e eu não percebo porquê. Acredito que seja ensinada em conservatórios, acredito que seja avidamente aplaudida em concertos, desde que a toquem e a mantenham imortal.Um aparte: eu tenho a teoria de que todos os grandes artistas, sejam escritores, pintores, músicos, bailarinos ou pessoas dedicadas a qualquer expressão que produza alguma forma de beleza ou de comoção, são imortais. Se eu mencionar o Concerto para Piano em Lá menor, Opus 7, não deve dizer grande coisa, mas Clara Schumann compô-lo aos 14 anos.O que é que é preciso acontecer no mundo para que haja respeito pelas mulheres, sem que haja, por exemplo, uma decisão parlamentar a criminalizar o aborto – calma, não aconteceu, é só um temor –, que é uma decisão que deve caber às mulheres, porque é do corpo delas que se trata? Não é não.