Há palavras que a história transformou em insultos para evitar que as suas perguntas sobrevivam. A acusação de “ludita” é uma delas. A versão oficial ensina que os luditas eram trabalhadores ignorantes que destruíam máquinas por medo do progresso. É uma história conveniente, pois permite apresentar toda a resistência à mudança tecnológica como irracionalidade e toda a inovação como um bem indiscutível.No entanto, a realidade era mais complexa. Os tecelões e artesãos ingleses do início do século XIX não lutavam contra as máquinas, lutavam contra um sistema económico que utilizava as máquinas para destruir ofícios, reduzir salários, explorar crianças e concentrar riqueza.O que eles compreenderam continua a ser verdade dois séculos depois, pois nenhuma tecnologia é neutra. Toda a tecnologia incorpora uma visão da sociedade, beneficia alguém, prejudica alguém e redistribui poder, riqueza e oportunidades. Por isso, a questão nunca foi a máquina, a questão foi sempre quem a controla. E é precisamente essa pergunta que regressa hoje perante a expansão da Inteligência Artificial.Durante anos ouvimos que a nova revolução tecnológica produziria abundância, eficiência e prosperidade para todos. Contudo, à medida que os sistemas de IA se tornam mais poderosos, cresce também a concentração de riqueza, de informação e de capacidade de decisão em poucas organizações privadas. O desenvolvimento tecnológico avança a uma velocidade impressionante, enquanto o debate democrático sobre os seus efeitos avança muito mais devagar. É neste contexto que surgem movimentos identificados pela expressão Human First. O seu argumento é quase desconcertantemente simples, pois antes da tecnologia vêm as pessoas. Não são movimentos contra a inovação, são movimentos contra a ideia de que a inovação dispensa justificação e regulação. Contra a crença de que qualquer avanço técnico constitui automaticamente um avanço humano. Contra a lógica segundo a qual as comunidades devem adaptar-se às exigências da tecnologia, em vez de a tecnologia se adaptar às necessidades das comunidades.A própria Igreja Católica entrou agora neste debate de forma inesperadamente frontal. Na sua primeira encíclica, Magnifica Humanitas, Leão XIV afirma que a Humanidade se encontra perante uma escolha histórica, entre construir uma nova Torre de Babel tecnológica ou colocar a Inteligência Artificial ao serviço da dignidade humana. O Papa alerta para a concentração de poder tecnológico, para a manipulação da verdade, para a substituição do trabalho humano sem proteção social e para a tentação de reduzir pessoas a simples unidades de dados. A mensagem central é que a tecnologia deve servir o bem comum e não converter-se num instrumento de domínio.Quando Leão XIII publicou a Rerum Novarum em 1891, a questão era a Revolução Industrial. O problema não eram as fábricas, era o que as fábricas faziam às pessoas quando não existiam limites éticos, direitos laborais ou instituições capazes de proteger os mais vulneráveis. Hoje, a questão não é a Inteligência Artificial, é o que acontecerá às sociedades se o desenvolvimento tecnológico for orientado exclusivamente pela lógica da acumulação de poder, de dados e de lucro.Talvez por isso valha a pena recuperar outra figura que habita o imaginário português. Quando os navegadores se aproximam do Cabo das Tormentas, surge o Adamastor. Costumamos interpretá-lo como símbolo do medo perante o desconhecido, no entanto, essa leitura é incompleta. O Adamastor não representa apenas o medo, representa também os perigos reais que aguardam quem navega. Pois as tempestades existiam, os naufrágios existiam e os homens morriam realmente naquelas águas.Camões não propõe negar o monstro, também não propõe regressar a casa, propõe enfrentá-lo de olhos abertos. Essa talvez seja a atitude mais necessária na era da Inteligência Artificial. Entre os arautos da tecnologia e os profetas do colapso existe um caminho mais difícil, de reconhecer simultaneamente as promessas e os riscos. É preciso recusar tanto a idolatria da máquina, como o medo da mudança. Porque o verdadeiro perigo nunca foi a inovação, o verdadeiro perigo é o culto da inevitabilidade.Sempre que alguém afirma que não existe alternativa, que o futuro já está decidido e que apenas resta adaptarmo-nos, convém recordar os luditas, convém recordar o Adamastor e convém recordar a advertência agora lançada a partir do Vaticano, pois nenhuma máquina, por mais poderosa que seja, pode substituir a responsabilidade humana de decidir que tipo de sociedade deseja construir.Os luditas não eram inimigos do futuro. Eram adversários de um futuro em que os seres humanos se tornavam descartáveis. E a pergunta de hoje continua a ser a mesma. Não é se conseguiremos construir máquinas mais inteligentes, é se continuaremos a construir uma Humanidade à altura delas, como afirmou agora o Papa Leão XIV.