O Terreiro do Paço agora é uma arena

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Contemplo uma belíssima representação do Terreiro do Paço com data de 1662. Trata-se de uma pintura assinada pelo holandês Dirk Stoop, da coleção do Museu de Lisboa, conservada no Palácio Pimenta (Campo Grande, Lisboa). Cito o texto descritivo do site do museu: “A obra foi identificada como possível representação da chegada a Lisboa de D. Francisco de Mello e Torres, 1.º Conde da Ponte e embaixador extraordinário de Portugal em Londres, onde acordou o Tratado de Whitehall (23 de junho de 1661) e ultimou as negociações para o casamento de D. Catarina de Bragança com Carlos II de Inglaterra.”

Dou um salto no tempo, lendo uma notícia publicada no site da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) há meia dúzia de semanas (18 de maio). Regista-se a assinatura de uma parceria entre a FPF e a Câmara Municipal de Lisboa, “para levar o Mundial de Futebol ao emblemático Terreiro do Paço, transformando um dos espaços mais icónicos da cidade no palco oficial da competição em Lisboa, entre os dias 11 de junho a 19 de julho.”

Na cerimónia, Pedro Proença, presidente da FPF, definiu os fundamentos daquela parceria: “Há uma relação histórica entre as duas instituições para estes grandes eventos. Quero deixar um elogio ao presidente da Câmara Municipal de Lisboa, que desde a primeira hora disse 'presente' a este projeto da Federação Portuguesa de Futebol, porque sabe o quanto é importante esta relação umbilical que existe entre a nossa Seleção e a cidade de Lisboa, num espírito de união e de vontade coletiva de fazermos bem.”

Que aconteceu entre 1662 e 2026? Uma radical mudança da função pública das imagens. Aquilo que, há mais de 300 anos, existia como informação, reconhecimento e celebração de uma determinada arquitetura de poder dilui-se agora num gadget social. O que mais importa é fazer passar uma ideia transcendente de multidão, a ponto de essa multidão ser consagrada como “objeto” estranho a qualquer consciência política do valor simbólico dos lugares por onde circulamos.

Não haverá muitas entidades institucionalizadas que detenham tamanho poder. O futebol passou mesmo a ser a única dessas entidades que, com a cumplicidade de muitos discursos televisivos, consegue fazer valer a ideia segundo a qual a formação de uma multidão (futebolística, claro) dá corpo a uma razão inquestionável, de uma só vez global e patriótica.

Não que o Terreiro do Paço seja um lugar santificado. Em boa verdade, o valor histórico da praça resulta, não de qualquer unicidade ideológica, mas das contradições que a sua história integra – dos comícios de celebração do Estado Novo, com Salazar a discursar de uma janela, até às mais diversas convulsões do 25 de Abril que aí encontraram também o seu teatro simbólico.

A FPF batizou a ocupação do Terreiro do Paço com uma expressão para fazer história: Lisboa Football Arena (escrito assim mesmo, com um curioso sobressalto anglo-saxónico). O futebol assume-se, assim, como peça fulcral da cultura dominante, desde logo das suas linguagens. Aliás, a FPF estabeleceu acordos para reconfigurar os espaços públicos de mais de uma centena de autarquias, por certo com o aval dessas autarquias, através da “implementação das Fan Zone”, projeto lançado com a designação bizarra de “Pintar Portugal” (leia-se, também no site da FPF, notícia com data de 16 de março).

A histeria televisiva que acompanha tudo isto vai glorificando as Fan Zone, ajudando a cimentar a nossa eufórica perda de memória coletiva. Há uma legião de jovens repórteres de televisão que descrevem as respetivas vivências através do uso sistemático da palavra “loucura”. Quem os ensinou? Para os admiradores da beleza do futebol, fica uma inquietação: admirar “apenas” a seleção de Roberto Martinez, sem gritos nem tribunais, é coisa que as arenas não toleram.

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