Neste mês de agosto tive uma conversa sobre como a perceção da passagem do tempo se vai alterando ao longo da nossa vida. Um ano na nossa infância parecia durar muito mais do que parece um ano na nossa vida adulta. Acho que todas e todos nós sentimos isso de alguma forma. Mas na conversa também nos interrogámos: será que a perceção da passagem do tempo é igual para uma criança de há 30 ou 40 anos e uma criança de agora? E mesmo para uma pessoa adulta, será que o tempo em 2026 parece passar mais rápido do que o tempo em 1996?
Uma coisa é certa: vivemos num ritmo mais acelerado, permanentemente ligados, bombardeados com informação e, muitas vezes, com uma exigência de resposta imediata. Não sei como é que isso influencia a nossa perceção da passagem do tempo, mas sei como influencia o nosso bem-estar e a nossa saúde mental.
Também no fim do mês de agosto, recebi vários desabafos de amigos (mas sobretudo de amigas) sobre como custa a ideia de regressar ao dia a dia “normal” depois de um período de férias. E não tem a ver com o que fazem, até porque muitos deles gostam do trabalho que têm. Tem sobretudo a ver com o retorno a uma rotina em que o tempo livre é quase inexistente e onde se sentem afogados em tarefas e coisas para tratar.
Nas férias, mesmo que as tenham passado em casa ou que tenham tido poucos dias, conseguiram dormir, almoçar com tempo, ter conversas mais longas com os filhos adolescentes ou ler um livro inteiro. Tudo coisas básicas e simples que dificilmente conseguem fazer durante o ano.
São vários os fatores que explicarão os elevados níveis de burnout, de falta de sono e de elevado consumo de antidepressivos em Portugal – desde o desequilíbrio entre ordenados e custo de vida até à enorme solidão com que muitos vivem –, mas não tenho dúvidas que a falta de tempo e a sensação de assoberbamento contribuem fortemente para esses problemas.
E por que é que tem de ser assim? A forma como organizamos o nosso tempo coletivo é uma escolha política. O ritmo de vida acelerou, mas não ganhámos mais tempo, o que é um contrassenso. A norma continua a ser as 40 horas e os cinco dias de trabalho por semana que foram instituídos no século passado.
Imaginem como seria a sensação de fim de férias se voltássemos para uma semana de trabalho de quatro dias. Ou como seria alterada a nossa perceção da passagem do tempo se conseguíssemos, durante o ano, ter tempo para fazer coisas tão básicas como ler um livro? E como estaria a saúde mental do país se todas as pessoas tivessem mais tempo?
São perguntas que acho que temos a responsabilidade de conseguir responder. E por isso, o Livre tem insistido tanto em continuar a experiência da semana de quatro dias, que este governo interrompeu inexplicavelmente. E continuaremos a insistir nesta luta pelo direito ao tempo e por uma vida plena ao longo de todo o ano.