O supremo complexo de Ícaro

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Conta o mito grego que o mestre artesão Dédalo construiu umas asas com penas de pássaros, fios de cobertores, tiras de couro das próprias sandálias e cera de abelha para escapar pelos ares com o filho, Ícaro, de um labirinto que ele próprio criara.

Dédalo alertou, entretanto, Ícaro que corria o risco de molhar as asas de penas de pássaros e afundar, caso voasse demasiado perto do mar, ou de derreter a cera de abelha, caso voasse demasiado perto do Sol.

Ícaro ignorou os avisos do pai, voou alto demais, derreteu as asas, caiu redondo no mar e afogou-se.

O filho de Dédalo é hoje usado metaforicamente quando alguém, por altivez, petulância, sobranceria, ambição, vaidade ou todas elas juntas, se sente acima do bem e do mal. Normalmente, quando menos espera, cai.

O Supremo Tribunal Federal do Brasil (STF), a mais alta corte do país, é esse alguém.

Dada a falência política, moral, democrática e intelectual do poder executivo durante o governo de Jair Bolsonaro e a proverbial falta de vergonha do poder legislativo, que brinca com o orçamento, como prova aquele caso em Pedreiras – cidade de 39 mil habitantes em que foram realizadas 19 extrações dentárias por pessoa no ano de 2021 para justificar a aquisição fraudulenta de equipamento odontológico –, e abriga, entre si, fugitivos da Justiça, suspeitos de assassinato, hackers e agressores de cônjuges, o poder judicial assumiu o papel de oásis da República.

Mais: como ao mesmo tempo em que, primeiro, tornou inelegível, e, depois, mandou prender Bolsonaro e mais meia dúzia de políticos e militares golpistas, a Justiça dos EUA deixava à solta Donald Trump e demais instigadores da invasão ao Capitólio, ganhou elogios internacionais.

Boa parte dos 11 juízes do STF, que já não eram conhecidos pela modéstia, acharam-se então heróis. Altivos, petulantes, sobranceiros, ambiciosos, vaidosos, sentiram-se acima do bem e do mal e voaram. Voaram, literalmente, muito.

Segundo dados, cruzados pelo jornal O Estado de S. Paulo, de registos de passageiros do terminal executivo de Brasília e do histórico de decolagens das empresas Prime You e FSW PSE, ambas do banqueiro Daniel Vorcaro, pelo menos três juízes do STF viajaram 11 vezes à conta do mesmo cidadão que corrompeu meia Brasília nos últimos anos e está detido na mesma cela da superintendência da Polícia Federal que, até fevereiro, era ocupada por Bolsonaro.

O juiz Alexandre de Moraes, cuja mulher advogava para Vorcaro, de quem recebeu 129 milhões de reais em três anos, nega. O juiz Dias Toffoli, cujos irmãos foram sócios do cunhado e braço-direito de Vorcaro num resort, não comenta. O juiz Kássio Nunes Marques confirmou.

Os senhores magistrados, como Ícaro, voaram demasiado perto do Sol. Derreteram e caíram no conceito do povo.

E agora deixaram o STF, a mais alta corte do único poder, o judicial, que parecia estar incólume à devassa geral, na mesma situação de Dédalo: perdidos num labirinto criado por eles próprios.

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