O sorriso de Vítor Melícias

Manuel José Guerreiro

Presidente da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de Torres Vedras

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Vítor Melícias é um homem extraordinário e um franciscano convicto.

Por vezes, consequência de um tempo em que a superfície é mais importante do que a profundidade do pensamento, surge quem não compreenda a verdadeira dimensão do desígnio a que dedicou toda a sua vida: procurar corrigir o mercado em benefício do peso da economia social.

Melícias nunca hesitou em construir cumplicidades, compromissos e poder para que, a partir de uma base capitalista, mais gente pudesse sair da pobreza e se cumprisse no seu máximo potencial. Talvez não seja óbvio o que o distingue e dele ficará para a história - o pensamento estrutural sobre o mutualismo, cooperativismo e assistencialismo, mas também a intervenção e influência na vida de milhares de pessoas.

O capitalismo mercantil nasce nos grandes portos de Itália. Em Veneza, Génova e Florença quebra-se o nó górdio do feudalismo e nasce uma burguesia que permite o crescimento económico e o fim do “decreto” que condenava os malnascidos à miséria eterna. Ora, o mercado precisa de Deus. Precisa de uma moral do Bem que zele pelo destino comum. É nessa perspetiva que nasce a Economia Social no capitalismo industrial, pela necessidade de redistribuir o dinheiro em função das pessoas, da sociedade e dos seus equilíbrios.

Francisco de Assis era filho de um riquíssimo comerciante de tecidos.

Depois de um encontro com um leproso funda uma nova ordem baseada no voto de pobreza, na pregação e no amor pela natureza. Mas os franciscanos fizeram mais do que isso… foram críticos dos empréstimos com juros excessivos e defensores da redistribuição através de regras de mercado claras. A Economia Social nasce também desse berço, tal como, já no século XV, são os franciscanos que “inventam” os montepios, bancos de microcrédito que permitem a camponeses e artesãos não caírem nas mãos de quem os explorava. É essa a base da cooperação, da integração, da justiça social.

A influência dos franciscanos em Portugal é semelhante à dos templários.

Ninguém leva nada para o outro mundo.

O que se tem de fazer é aqui e agora, só neste mundo se conquista espaço e dimensão do outro.

Ser europeu é também isto. Tentarei um dia partilhar consigo algumas ideias que me parecem válidas desta nossa identidade comum. É neste lugar que encontramos, que sempre encontrámos, Melícias. Na raiz do pensamento e ação de Francisco de Assis, na importância de acreditar no acolhimento, no desafio de, sendo pobre, influenciar os movimentos do mundo em todas as suas dimensões. É para mim, enquanto presidente da Caixa Agrícola de Torres Vedras, um orgulho poder homenagear esta sexta-feira o mais carismático de todos os franciscanos. Um homem alegre, que sorri para os outros, um sorriso aberto, largo, que acolhe. Nele existe uma raiz e proximidade imediata.

Palavras breves, mas justas. E neste correr de pena ocorre-me que nunca nos modificamos por imposição, só pelo exemplo, por uma ideia de Bem, pelo Amor, palavra que define quem acredita mesmo em Deus e na sua transcendência.

Há milhões de páginas escritas sobre Deus, mas a única coisa que verdadeiramente importa é o Amor, sendo a construção bem mais importante do que a ideia de perfeição.

Nesta sexta-feira, dia da homenagem Vítor Melícias, lembro a outra referência daqui, do Ramalhal, António José dos Santos que, com o seu irmão gémeo, José António, criou um império do Bem a partir destas terras de oeste e desta fábrica que deu de comer a muita gente.

Um dia, não há muito tempo, fui surpreendido com um seu telefonema. Estava à porta de minha casa e precisava que eu descesse. Fui à janela e fiquei “incomodado” vi-o a tirar uma enorme palete do porta bagagens com uvas que me trouxera do Alentejo. Um peso enorme que carregou para me ver sorrir. Senti- me muito pequeno, mas também grande naquele instante. Fiquei comovido. Lembro o telefonema de há mais de 30 anos, num domingo, estava no barbeiro para almoçar, queria saber de um restaurante italiano de que lhe havia falado. Daquela mesa restam hoje muito poucas pessoas. Nunca esqueço esses instantes, acredito que me obrigou a ser melhor para mim e para os outros.

Amor exige reciprocidade, vasos comunicantes, e isso constitui-nos na obrigação interior de sermos melhores. Só o amor converte e educa, no fim do dia estes são os atos que têm futuro e que contaminam como sempre pregou de forma solitária, mas solidária o nosso homenageado padre Vítor Melícias, o evangelizador da Economia Social de Guterres, de Marcelo e de Eanes.

O sorriso dele é mais profundo do que a espuma do tempo. Naquela Igreja da Luz, a esperança ainda não se apagou.

manuel.guerreiro@ccamtv.pt

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