O salto

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Em menos de dois dias, mais de 60 mil pessoas entraram em Ceuta, uma cidade com 84 mil habitantes. Bastou uma leitura errada de uma sentença do Supremo espanhol sobre devoluções imediatas, transformada em boato por redes de tráfico de pessoas, e espalhada em grupos de Facebook e WhatsApp, com a promessa de fronteiras abertas. Milhares partiram a nado, sem plano, nem bagagem. Morreram dezenas. Quase todos regressaram a Marrocos em poucos dias, muitos pelos próprios meios.

O episódio diz quase tudo sobre o nosso tempo. Primeiro, sobre a pressão que não cessa de crescer na margem sul: do Magrebe ao Sahel, do Sudão à Eritreia, milhões de pessoas vivem em guerra e pobreza endémicas, cuja única esperança é um salto para a Europa. Qualquer salto, mesmo que acabe num campo de refugiados.

Ninguém está tão atento às mudanças legislativas e administrativas europeias, em matéria de imigração, como quem só espera um pequeno sinal para partir, ainda que sem destino. Não se está melhor do que há uma década ou duas, está-se francamente pior. O tráfico de pessoas intra-africano nunca foi tão intenso, por exemplo.

Segundo, sobre a sensibilidade exacerbada e eleitoralista dos governos europeus. Em poucas horas, com pouca e má informação, a Itália suspendeu unilateralmente Schengen com Espanha e 22 Estados assinaram uma carta de protesto. Reações a pensar no eleitorado interno, não no problema. Os serviços secretos espanhóis concluíram, entretanto, que nada disto foi planeado por Marrocos. Bastaram o desespero e um telemóvel.

Terceiro, se mais fosse necessário, sobre o poder da desinformação em tempo real: dezenas de milhares de pessoas mobilizadas em horas por um boato, sem qualquer preparação, como se a fronteira fosse um mercado que abre e fecha. Em contextos de analfabetismo elevado e desespero fundo, um boato vale por um decreto.

Mas há algo que o episódio não pode normalizar. O fluxo natural não pode continuar a ser a passagem de pobres e desesperançados em África para explorados na Europa. Mesmo que, para muitos, essa pareça ainda a melhor das sortes possíveis.

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