Portugal precisa de discutir menos o salário mínimo e mais o crescimento do salário médio e a valorização do trabalho.Durante demasiado tempo, o debate político centrou-se, quase exclusivamente, no salário mínimo. E com razão: ninguém deve trabalhar e permanecer pobre. Valorizar os rendimentos mais baixos foi, e continua a ser, uma exigência social legítima.Mas, enquanto discutíamos, e bem, a valorização dos rendimentos mais baixos, fomos ignorando um problema que pode revelar-se ainda mais preocupante: o salário médio a crescer demasiado lentamente para acompanhar os rendimentos mais baixos.O verdadeiro desafio de Portugal não consiste apenas em aumentar o salário mínimo. Consiste, sobretudo, em fazer crescer o salário médio e devolver perspetivas à classe média. Porque uma economia saudável não é aquela onde todos ganham pouco mais do que o mínimo; é aquela em que o mérito e a qualificação são reconhecidos de forma justa.O Banco de Portugal sinalizou-o no seu Boletim Económico de junho: o salário mediano, o valor que separa metade dos trabalhadores dos restantes, tem-se aproximado progressivamente do salário mínimo. O chamado Índice de Kaitz, que mede essa relação, atingiu cerca de 90% em 2025, um dos valores mais elevados da Zona Euro, de acordo com dados do Banco de Portugal e do Eurostat.Nos últimos anos, o salário mínimo tem evoluído de forma muito significativa, aproximando-se gradualmente dos salários praticados em muitas profissões qualificadas. O problema não está na subida do salário mínimo, que é desejável e socialmente necessária. O problema é o salário médio não acompanhar esse ritmo.Quando a diferença entre quem inicia a vida profissional pelo salário mínimo e quem estudou, investiu na sua formação ou assume maiores responsabilidades se torna cada vez menor, algo deixa de funcionar. O esforço adicional deixa de encontrar uma recompensa proporcional. A progressão profissional perde atratividade. O mérito deixa de contar como incentivo económico.A classe média não desaparece de um dia para o outro. Vai sendo comprimida lentamente: deixa, primeiro, de conseguir poupar, depois adia a compra de casa ou o investimento na educação dos filhos, e acaba por fazer aquilo que Portugal conhece demasiado bem: procurar no estrangeiro a valorização que não encontra no país.É por isso que o verdadeiro indicador do sucesso económico não pode ser apenas o valor do salário mínimo. O indicador decisivo é o salário médio.Mas aumentar salários não depende apenas de decisões administrativas. Exige a criação de condições estruturais para que o trabalho seja mais bem remunerado. E isso passa, inevitavelmente, entre outros fatores, por aliviar a carga fiscal sobre quem trabalha. Portugal continua a tributar de forma elevada o rendimento do trabalho, como reconhece a própria OCDE, reduzindo o salário líquido disponível e limitando a capacidade de consumo das famílias.Menos impostos sobre o trabalho significa maior rendimento disponível e maior dinamismo económico. Quando as famílias dispõem de mais rendimento, consomem e investem mais. Esse dinamismo transmite-se às empresas, que vendem mais, investem mais e criam emprego. E esse efeito acaba por beneficiar o próprio Estado, que arrecada mais receita através do crescimento da atividade económica, do aumento do consumo e da criação de riqueza.Portugal precisa, por isso, de discutir menos a proximidade ao salário mínimo e mais a distância que nos separa dos salários médios europeus. Segundo o Eurostat, os salários médios portugueses continuam significativamente abaixo da média da União Europeia, o que ajuda a explicar a dificuldade em reter talento e consolidar uma verdadeira classe média.Essa é uma realidade que os municípios conhecem bem: sentem-na quando veem partir os seus jovens mais qualificados e quando enfrentam dificuldades em atrair e reter talento.Uma economia forte mede-se pela capacidade de criar oportunidades de progressão e não apenas pela redução da pobreza laboral.Portugal não pode resignar-se a ser um país de salários mínimos. Tem de ter a ambição de ser um país de salários médios, que valorizem o trabalho e fixem o talento.