Imaginemos, por um instante, que tratávamos outros crimes da mesma forma como tantas vezes tratamos a violência sexual.“Foi assaltado? Então por que levava o telemóvel consigo? Terá sido um empréstimo?”“Foi atropelado? E por que atravessou a rua naquele momento?”“Foi vítima de burla? E porque foi tão ingénuo?”Estes exemplos parecem absurdos – e são. No entanto, é precisamente este tipo de raciocínio que continua a ser aplicado às vítimas de violência sexual, minimizando a gravidade do crime e deslocando a responsabilidade de quem agride para quem é vítima.Foi isto que voltou a acontecer nos mais recentes comentários de Cristina Ferreira sobre o caso de uma alegada violação de uma jovem por parte de quatro homens. Não se trata de julgar intenções, mas de reconhecer o impacto real das palavras, sobretudo quando ditas por alguém com enorme visibilidade pública. Uma violação não é “fazer sexo”. E o conceito de consentimento continua a ser profundamente mal compreendido. Consentimento é um “sim” claro, livre, informado e contínuo. Não é silêncio, não é medo, não é imobilidade, não é confusão, não é vulnerabilidade, não é cedência perante pressão, não é tentativa de evitar conflito, não é incapacidade de reagir.Consentimento não se presume, não se interpreta, não se adivinha. Não depende da roupa, da hora, do local, do estado emocional ou da relação entre as pessoas. Não é válido se houver medo, intoxicação, desigualdade de poder, manipulação ou incapacidade de resistência. E, sobretudo, pode ser retirado a qualquer momento. Se não há um “sim” explícito, há um “não”. Sempre. Esta é a regra básica que protege todas as pessoas, e que deve orientar qualquer análise pública sobre violência sexual.Sempre que se confundem conceitos reforça-se uma narrativa perigosa: a de que a vítima poderia ter evitado o crime. E esta narrativa tem consequências profundas.Em primeiro lugar, naquela vítima concreta. Uma jovem que foi violada não precisa de ser julgada pela sociedade. Precisa de ser protegida, acreditada e acompanhada. Em segundo lugar, silencia todas as outras vítimas. Cada vez que uma vítima vê outra ser culpabilizada, aprende uma lição devastadora: “Se eu falar, vão dizer que a culpa foi minha.” E cala-se. E isola-se. E não procura ajuda. A culpabilização da vítima é um dos maiores fatores de subnotificação da violência sexual.Em terceiro lugar, desculpabiliza quem agride. Quando se coloca o foco no comportamento da vítima, retira-se o foco do único responsável: quem cometeu o crime. A violência sexual não acontece porque alguém não teve cuidado ou não soube fazer-se ouvir. Acontece porque alguém decidiu violar. E é essa decisão – e apenas essa – que deve ser escrutinada.A violência sexual não é um tema para improviso, opinião ligeira ou especulação. É um fenómeno complexo, com consequências devastadoras, que exige apresentadores e comentadores preparados, informados e capazes de comunicar com responsabilidade. Precisamos, enquanto sociedade, de parar de perguntar “o que fez a vítima?” e começar a perguntar “por que é que alguém violou”?Precisamos de educar para o consentimento, criar espaços seguros onde as vítimas possam ser ouvidas sem julgamento e responsabilizar quem agride, e não quem sofre.A violência sexual é um crime.E, como qualquer crime, deve ser analisado com rigor, empatia e responsabilidade. A culpa nunca é da vítima. Nunca.