Há textos que merecem ser guardados pela impressionante elasticidade com que moldam a realidade. Depois de um conjunto de considerações sobre a forma como o PCP assinalou o falecimento de Carlos Brito – reveladoras de que o objectivo não é honrar o percurso da figura, mas sim cavalgar o ataque aos supostos deméritos do seu antigo partido –, Davide Amado, presidente da Concelhia do PS de Lisboa, acusa o PCP de ter “chumbado” uma recomendação do PS relativa ao aumento do custo de vida.Ora, o PCP não chumbou nada, o PCP absteve-se. Quem votou contra e efectivamente chumbou as propostas foi a direita (PSD, IL e CH), aquela mesma direita cujas políticas macroeconómicas mais penalizam as famílias e ao lado da qual o PS escolhe posicionar-se.O PS escreve recomendações em Lisboa com o descaramento de quem parece ter habitado um planeta distante nos últimos anos. Convém recordar a Davide Amado o rasto da governação do seu próprio partido, que governou inclusivamente com maioria absoluta.Foi o PS que optou por não revogar as normas gravosas da legislação laboral de Passos e troika, perpetuando a precariedade e os salários de miséria. Foi o PS que recusou a redução do IVA da eletricidade, do gás e dos combustíveis. Foi o PS que manteve a lei dos despejos e encheu de benefícios fiscais os grandes fundos imobiliários, transformando o direito à habitação numa miragem. Foi o PS que, aceitando a proposta do PCP de reduzir o valor dos passes, mais tarde asfixiou o investimento nos transportes públicos. Foi o PS que assistiu, de braços cruzados, à degradação do SNS, para ajudar o negócio privado da doença a florescer.E agora, perante o desastre social que ajudaram a semear, oferecem aos lisboetas um programa limitado a três meses, ao mesmo tempo que aprovam o Orçamento do Estado do Governo AD. Enquanto as famílias são esmagadas, os grandes grupos económicos – como a Galp, a EDP, a Jerónimo Martins ou a Sonae – distribuem dividendos obscenos. E isso não é uma fatalidade, é uma opção política partilhada por PS, PSD e CDS.O debate municipal, aliás, atingiu picos de alta comédia. Quando confrontado pela direita com a suposta “irresponsabilidade financeira” destas propostas, o PS defendeu-se com uma tirada magnífica: irresponsabilidade financeira é aprovar isenções fiscais ao Rock in Rio. Um argumento fantástico, não fosse o pormenor de essa ter sido uma política praticada pelo próprio PS e que o PS continua alegremente a viabilizar. Tal como viabiliza a escandalosa política da chamada devolução de IRS aos munícipes mais ricos da cidade.O PS ficou profundamente ofendido. Acha que fica muito mal ao PCP apontar o dedo à sua hipocrisia e acusa-nos de “alinhar com a direita”, fingindo não perceber que o PCP critica, precisamente, o alinhamento estrutural do PS com a direita: é o PS que actua como cúmplice activo das políticas que transferem a riqueza produzida por quem trabalha para uma minoria que dela se apropria.Davide Amado vaticina que os eleitores empurram o PCP para a irrelevância. Mas ninguém colocaria tanto afinco em reiteradamente atacar algo irrelevante. Aquilo que o PS chama de “irrelevância” é, na verdade, a recusa do PCP em ser cúmplice no teatro da hipocrisia. Escreve sem aplicação do Acordo Ortográfico