O princípio de qualquer coisa

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Um dos candidatos naturais a presidente do Brasil na próxima eleição está preso. Por essa razão, foi obrigado a escolher um delfim, que concorre beneficiando-se do espólio eleitoral dele, em nome dele, por ele e para ele.

No meio do processo eleitoral há um escândalo de corrupção no país de proporções incalculáveis, que pode abalar as estruturas de Brasília.

Donald Trump a liderar a mais poderosa nação do mundo, os Estados Unidos, além de tornar a geopolítica mundial muito mais imprevisível, pode também influenciar o sufrágio.

E o lodaçal das redes sociais, onde as fake news se tornaram o padrão, também.

Já a polarização entre bolsonarismo e lulismo, entretanto, gera uma multiplicação de pré-candidatos e candidatos de uma suposta terceira via de centro-direita ou de direita moderada.

Eis pois, em cinco parágrafos, o cenário pré-eleitoral no Brasil. Mas os parágrafos e o cenário acima referem-se a 2018, não a 2026.

Como hoje Jair Bolsonaro, candidato natural às eleições, Lula da Silva também era um nome certo em 2018, não estivesse preso. Sem filhos políticos, escolheu Fernando Haddad como herdeiro, papel agora ocupado, do outro lado da barricada, por Flávio Bolsonaro.

Em vez do escândalo de então, a Lava Jato, o dos dias de hoje é o Master, em torno da falência de um banco cujo dono, assim como os donos da construtora Odebrecht, em 2018, ameaça delatar meia Brasília.

Trump, que governou de 2017 a 2021, voltou ao poder no ano passado.

E o esgoto das redes agora até está anabolizado pelo alcance incalculável da IA e afins.

Como Lula e Flávio monopolizam mais de dois terços dos votos nas sondagens, proliferam hoje, via Ronaldo Caiado, Romeu Zema, Eduardo Leite e outros nomes, os candidatos a conquistar o terceiro terço, assim como se multiplicavam, em 2018, através de Ciro Gomes, de Geraldo Alckmin, de Henrique Meirelles ou de Marina Silva.

Segundo as leis da numerologia, “a vida funciona em ciclos de nove anos, marcando um processo contínuo de aprendizagem, construção e finalização”. Os anos cuja soma dos algarismos é nove normalmente são os mais focados no encerramento de capítulos, no desapego de padrões antigos e na limpeza emocional.

Logo, da mesma forma que 2017 (dois mais um mais sete igual a nove), o ano em que Lula foi condenado e Bolsonaro se lançou candidato, marcou a política brasileira dos nove anos seguintes, 2025 (dois mais dois mais cinco igual a nove), o ano em que Lula anunciou a recandidatura e Bolsonaro foi condenado, pode marcar os próximos.

Noutra interpretação, mais histórica e filosófica, Karl Marx, ao comparar Napoleão com o sobrinho, Luís Bonaparte, que teimava em imitar o tio, chamou ao consulado do primeiro glorioso e ao do segundo burlesco. O que resultou, adaptando uma frase original de Friedrich Hegel, numa das suas mais célebres citações - “a história repete-se, primeiro como tragédia, depois como farsa”.

Não é preciso ser filósofo alemão ou numerólogo amador para perceber que o Brasil está, outra vez, no princípio de qualquer coisa - em outubro se saberá do quê.

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