O prazer de mandar franceses para o “Burquina-que-os-pariu”!

Raúl M. Braga Pires

Politólogo arabista. Professor no Instituto Piaget de Almada

Publicado a

O Burquina saiu da anedota dos cursos de Relações Internacionais, para entrar nas notícias, desde setembro de 2023!

Sexta, 26, foi anunciado o corte de relações diplomáticas entre Burquina e França. O patamar é exclusivamente político-diplomático, e os franceses residentes no Burquina, continuarão na normalidade, sem “leis especiais”, discriminatórias. O ministro da Comunicação, Gilbert Ouedraogo, foi ainda mais claro, ao descartar os adquiridos cultural, humano e social deste momento de fraqueza burquinabê.

Exactamente, o mais barulhento na sala, é o mais fraco, o mais inseguro, e o Burquina, tem tido momentos ensurdecedores, no seio da Aliança dos Estados do Sahel (AES), com o gigante Mali e o agora mais-que-estratégico Níger, com gasoduto argelino e tudo! Ao elo-mais-fraco, Ibrahim Traoré, Capitão-da-Junta-Militar, sem água, sem reflecting pool, tem que criar momentos que o mantenham na importância dos isolados, sobretudo agora, momento de negociações para a reabertura da fronteira entre o estratégico Níger e o litorâneo Benim. O Burquina, tem aliás uma fronteira tripartida, precisamente com Níger e Benim. É aqui que começa a perder, já que apesar da fronteira Burquina-Benim estar aberta, as travessias são altamente desaconselhadas, isolando assim a Junta do Capitão Traoré, do acesso às praias, portos e todas as sedas de todas as rotas.

Resta dizer, que no dia em que o Níger e o Benim assinarem o papel e reabrirem a fronteira terrestre, a AES passa a ter acesso ao mar, quebrando o isolamento recente, e reforçando, uma vez mais, o estratégico Níger do gasoduto argelino e agora do mar do Benim! Este último, membro da CEDEAO, a Comunidade Económica e Desenvolvimento da África Ocidental, da qual saíram os actuais AES, reforça a sua posição estratégica, ao reforçar as preocupações do Presidente da Serra Leoa, que preside actualmente à CEDEAO. Ou seja, será o Benim candidato a juntar-se à AES, com esta aproximação ao Níger? Ou será um ponta-de-lança, que desta forma manterá a harmonia possível entre CEDEAO e AES?

Perante este complexo, o Capitão Traoré joga simples e acusa França de interferência nos assuntos internos, de conspirar com terroristas e tentar provocar o caos no país, a partir de uma nova postura colonial. Sendo o “pânico Traoré”, começar a aperceber-se na inevitabilidade de uma saída russa e reentrada francesa, pela porta grande, após a forma humilhante como foram expulsos!

Enquanto isso não acontece, há que mandar os franceses para o “Burquina-que-os-pariu”, só porque sim, porque é o prazer que resta, porque levaram tudo e ficou a piada!

Diário de Notícias
www.dn.pt