O ‘Power of Siberia 2’ como retrato da crescente dependência da Rússia em relação à China

Jorge Costa Oliveira

Consultor financeiro e business developer

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Uma notícia recente no Wall Street Journal trouxe à baila o projeto do gasoduto Power of Siberia 2.

O projeto do gasoduto Power of Siberia 2, concebido para desviar o gás natural russo que antes abastecia a Europa para o mercado asiático, tem enfrentado profundos impasses. Embora Moscovo o apresente como um pilar estratégico da sua “viragem para a Ásia”, as negociações com a R. P. da China – que começaram em 2012 – e a execução prática do projeto enfrentam barreiras complexas.

1. Dificuldades subjacentes à negociação (Rússia vs. China)

As negociações entre Moscovo e Pequim atingiram um impasse severo, motivado por um desequilíbrio no poder de negociação e por divergências comerciais profundas.

  • A “guerra” de preços (o maior entrave): A China está ciente da dependência económica da Rússia e tem adotado uma postura extremamente agressiva. Pequim exige comprar o gás a preços equivalentes aos praticados no mercado doméstico russo (cerca de $50 dólares por mil metros cúbicos), que são fortemente subsidiados. Para a Gazprom, vender a este preço significaria operar com prejuízo estrutural. A China já beneficia de um desconto substancial no gasoduto Power of Siberia 1 (40 bcm/ano); este ano, Pequim está a pagar cerca de 258,8 dólares por 1000 metros cúbicos. Para se ter uma ideia da disparidade, este preço representa menos 38% do que o preço pago por outros clientes estrangeiros da Gazprom, estimado em 420,2 dólares. No próximo ano, prevê-se que o preço para a China desça para 223,9 dólares por 1000 metros cúbicos, representando um desconto adicional de 13,4%.

  • A cláusula “take-or-pay” (pegar ou pagar): Nos contratos tradicionais de longo prazo, o comprador obriga-se a pagar por uma percentagem mínima do volume anual (geralmente à volta de 80%), mesmo que não consuma o gás. A China tem tentado flexibilizar esta fasquia para valores muito mais baixos (próximos de 50%), reduzindo o seu risco comercial e transferindo a incerteza para a Rússia.

  • Estratégia chinesa de diversificação energética: Pequim tem como regra de segurança nacional não depender excessivamente de um único fornecedor. A China já recebe gás da Ásia Central (Turquemenistão, Cazaquistão), de Myanmar e possui uma vasta rede de terminais de Gás Natural Liquefeito (GNL) para receber navios de empresas do Catar, Austrália e outros 20 países fornecedores. Se aceitar a capacidade total do Power of Siberia 2 (50 bcm/ano), a dependência face à Rússia dispararia para níveis com os quais Pequim não se sente confortável.

  • O fator tempo: A China não tem pressa. Os analistas apontam que a procura chinesa por gás deverá atingir o seu pico em meados da década de 2030 devido à sua transição para energias renováveis. Sabendo que a União Europeia pretende eliminar totalmente a importação de gás russo por gasoduto a partir de outubro de 2027, Pequim prefere arrastar as negociações para conseguir concessões ainda maiores quando a asfixia económica da Rússia aumentar.

 

2. Dificuldades subjacentes à execução do projeto

Apesar da pressão russa, até agora existe apenas um Memorando de Intenções (MoI) “vinculativo” assinado [em 2 de setembro de 2025] entre a Gazprom e a CNPC, para a construção do gasoduto Power of Siberia 2, que transportaria gás da Rússia para o nordeste da China, passando pela Mongólia. O MoI obriga as partes a continuarem as negociações, mas alguns meios de comunicação internacionais interpretaram amplamente o documento como um acordo fechado que poderia “remodelar os mercados globais de energia”. No entanto, muitas questões complexas ainda precisam de ser resolvidas. De acordo com o presidente da Gazprom, Alexei Miller, as duas partes têm ainda de definir o preço do gás e o financiamento do projeto — detalhes essenciais para a sua concretização. Em bom rigor, a construção e a operacionalização do gasoduto enfrentam desafios logísticos, geopolíticos e financeiros colossais:

  • O desafio geopolítico da rota (a passagem pela Mongólia): O traçado planeado para o Power of Siberia 2 atravessa a Mongólia. Inicialmente, Moscovo preferia esta rota por razões topográficas e de custos de infraestrutura, e a China acabou por aceitá-la formalmente. No entanto, Pequim mantém fortes reservas de segurança. A aproximação diplomática e económica recente da Mongólia aos EUA e ao Ocidente (especialmente no setor dos minerais críticos) faz com que a China receie que um terceiro país, encravado no seu flanco, ganhe poder de trânsito sobre a sua energia.

  • Financiamento e isolamento económico: O projeto exige investimentos multimilionários. Devido às sanções ocidentais impostas à Rússia após a invasão da Ucrânia, a Gazprom perdeu o acesso aos mercados de capitais internacionais e a tecnologias ocidentais críticas para grandes obras de engenharia. A Rússia necessita que a China financie grande parte da infraestrutura, mas as empresas e bancos chineses evitam dar passos em falso para não sofrerem sanções secundárias do Ocidente. Para os grandes bancos estatais chineses (como o ICBC ou o Banco da China) e para as gigantes petrolíferas (como a CNPC ou a Sinopec), o mercado ocidental é muito mais valioso do que qualquer contrato com a Rússia. Perder o acesso ao sistema de liquidação de dólares (SWIFT) ou sofrer o congelamento de ativos no Ocidente seria um desastre financeiro para estas empresas. Por outro lado, embora o governo chinês critique publicamente as sanções ocidentais à Rússia, na prática, o Banco Central da China e as instituições financeiras chinesas cumprem-nas de forma rigorosa para se protegerem. Pequim não quer que o apoio político a Vladimir Putin resulte no estrangulamento económico das suas próprias empresas.

    • A assimetria no financiamento: Historicamente, grandes projetos transfronteiriços de energia envolvem consórcios onde ambos os lados dividem os custos de capital. Contudo, no caso do Power of Siberia 2, a Rússia está numa situação de quase falência no mercado de capitais internacional.

    • A Gazprom asfixiada: Com a perda quase total do mercado europeu e a destruição dos gasodutos Nord Stream, os lucros da Gazprom desabaram. A empresa não tem liquidez própria para financiar um projeto desta escala (estimado em dezenas de milhares de milhões de dólares) e a Rússia está em grande parte isolada financeiramente.

    • A exigência russa: Moscovo necessita que a China atue como o principal financiador da infraestrutura (através de empréstimos diretos ou de investimentos de capital na construção).

    • A recusa chinesa: A China recusa-se a passar um “cheque em branco”. Pequim argumenta que, se o gasoduto é crucial para a sobrevivência económica da Rússia, deve ser a Rússia a assumir o risco e o custo financeiro da sua construção. A China prefere limitar-se a ser a compradora do gás na fronteira, evitando injetar capital de risco em solo russo. E, como referido, os grandes bancos estatais chineses receiam ser incluídos nas listas negras de entidades sujeitas a sanções ocidentais.

  • Engenharia e logística extremas: O gasoduto terá de ligar os campos de gás de Yamal (na Sibéria Norte Ocidental) até à fronteira chinesa, cobrindo cerca de 2600 quilómetros. O percurso cruza terrenos de permafrost (solo permanentemente gelado que está a tornar-se instável devido às alterações climáticas), cadeias montanhosas e regiões isoladas com infraestrutura de transportes quase inexistente, o que encarece exponencialmente a manutenção e a logística de construção.

  • Prazos de execução longos: Especialistas do setor energético estimam que, após a assinatura do contrato (que ainda não aconteceu), seriam necessários pelo menos 5 a 6 anos para concluir a construção e mais 5 anos para que o gasoduto atinja a sua capacidade máxima de escoamento. Isto significa que o projeto não oferece qualquer alívio financeiro imediato à economia russa.

De acordo com o referido artigo no Wall Street Journal, as autoridades chinesas deixaram claro, mesmo antes da visita do Presidente russo, Vladimir Putin, a Pequim, em maio, que um acordo era impossível nos termos atuais, e instaram a delegação russa a não insistir no assunto. O Kremlin afirma que as negociações continuam a nível corporativo.

Em suma, o Power of Siberia 2 ilustra perfeitamente a assimetria na relação atual entre a Rússia e a China: enquanto a Rússia precisa desesperadamente do projeto para sobreviver economicamente a longo prazo, a China trata-o apenas como uma opção oportunista de conveniência política e económica, sem qualquer urgência em ceder às pretensões de Moscovo.

Com o rápido ritmo de expansão das energias renováveis e do nuclear na China, é bem possível que quando a Rússia estiver pronta para ceder para se poder celebrar um acordo relativo ao gasoduto Power of Siberia 2, Pequim já não esteja interessado.

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