O potencial do Brasil

Leonídio Paulo Ferreira

Diretor-adjunto do Diário de Notícias

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Entre as duas voltas das presidenciais brasileiras, mas sem falar dos candidatos, aproveitei a presença em Lisboa de Renato Flôres, prestigiado economista brasileiro, e perguntei ao diretor da International Intelligence Unit na Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro, em que áreas o potencial do Brasil já se concretiza.

A resposta elenca essas áreas, também algumas em que é preciso fazer mais: “A área clássica é a alimentação. O Brasil é hoje o celeiro do mundo e continuará a ser. Tem uma agricultura muito competitiva, muito bem gerida, inclusive, para usar a palavra da moda, com Inteligência Artificial. É personagem obrigatória em qualquer discussão sobre segurança alimentar. Poderia ser um exemplo também no clima, mas o debate climático, apesar de uma certa renascença, está em baixa devido à desordem mundial. E o próprio Brasil, embora tenha feito algumas coisas interessantes, deixa a desejar em algumas políticas ambientais; não tem aí o protagonismo que deveria ter. Na energia, certamente: os europeus cobiçam o hidrogénio verde brasileiro, uma área muito interessante, mas ainda incipiente. E a água: o Brasil tem talvez a posição mais invejável do mundo em recursos hídricos. Na Índia ou na Austrália, a água é um fator limitante; no Brasil, não. O país tem de ter uma posição cada vez mais ativa sobre como integrar e preservar essa riqueza. Outra área que me preocupa é a digital. Hoje, sem um semicondutor, nem a máquina de café funciona. Todos os eletrodomésticos usam semicondutores, e o país está defasado. Isso pode vir a ser uma séria dependência.”

Cito aqui Renato Flôres, já depois de conhecida a reeleição do presidente Luis Inácio da Silva, conhecido como Lula, para relembrar que uma vitória nas urnas é sempre um mero ponto de partida. Lula, que fez dois mandatos iniciais (2003 a 2011), e agora vai na segunda série de dois mandatos (2023-2031), tem grandes desafios pela frente, desafios que são certamente enormes, porque o Brasil é um país de dimensão continental, mas isso também é o que lhe dá armas que muitos poucos países possuem. Da resposta do economista da Fundação Getúlio Vargas aquilo que mais me surpreendeu é a vantagem brasileira em recursos hídricos, ultrapassando mesmo a Rússia. Seguem-se o Canadá, os Estados Unidos e a China, segundo as estatísticas das Nações Unidas. Um grande trunfo.

O Brasil, importa nunca esquecer, é uma grande potência: o 5.º maior país do mundo, o 7.º mais populoso, a 10.ª economia. Na primeira era Lula, chegou a ser a 6.ª maior economia, mas a pujança do início do milénio, quando os BRIC surgiram e o B de Brasil era tão natural como o R de Rússia, o I de Índia e o C de China, não foi mantida e isso causou deceção na população e certo desencanto em termos internacionais, onde é evidente a simpatia pelo país.

"Um país como o Brasil consegue se projetar com mais facilidade em momentos de alto crescimento. Consegue dar substância à narrativa da potência emergente, ser um país que futuramente terá mais peso. Isso ficou muito evidente durante o segundo mandato de Lula, de 2007 a 2011", referiu o especialista da Fundação Getúlio Vargas, baseado em São Paulo, Oliver Stuenkel.
"Um país como o Brasil consegue se projetar com mais facilidade em momentos de alto crescimento. Consegue dar substância à narrativa da potência emergente, ser um país que futuramente terá mais peso. Isso ficou muito evidente durante o segundo mandato de Lula, de 2007 a 2011", referiu o especialista da Fundação Getúlio Vargas, baseado em São Paulo, Oliver Stuenkel. FOTO: André Coelho / EPA

Numa outra conversa que tive sobre a projeção internacional, também publicada em paralelo com a campanha eleitoral, mas sem abordar os programas dos candidatos Lula e Flávio Bolsonaro, um outro especialista da Fundação Getúlio Vargas, baseado em São Paulo, Oliver Stuenkel, explicava assim a perda de dinamismo económico do Brasil e o impacto na sua influência global: “Um fator-chave que determina a visibilidade do Brasil no palco internacional é o cenário económico brasileiro. Um país como o Brasil consegue se projetar com mais facilidade em momentos de alto crescimento. Consegue dar substância à narrativa da potência emergente, ser um país que futuramente terá mais peso. Isso ficou muito evidente durante o segundo mandato de Lula, de 2007 a 2011. E logo no início do governo Dilma, ainda com altas taxas de crescimento, simbolizado pela Copa do Mundo de 2014. Isso acabou com as grandes manifestações que antecederam a Copa e depois com a crise económica. Então, desse ponto de vista estrutural, o Brasil hoje não tem a mesma projeção, porque o seu crescimento é relativamente baixo. Ou seja, o Brasil hoje, olhando apenas para a taxa de crescimento, está se afastando das potências asiáticas, está ficando mais para trás. O Brasil não está fechando, não está catching up. O gap que existe, ele não está ficando menor. De facto, a participação do Brasil no comércio global, está diminuindo, na verdade. Isso limita o espaço que o Brasil tem internacionalmente. Certamente os BRICS hoje, pós-expansão para 11 membros, são menos exclusivos. Sem dúvida, isso limita a sua capacidade de se posicionarem de forma clara. Mas isso também já antes era um desafio.”

Oliver Stuenkel, especialista em relações internacionais, apontava também a extrema polarização do país como um entrave à sua afirmação, pois as duas opções no boletim de voto propunham visões muito distintas do mundo, embora existam alguns consensos em termos de política externa. Agora, depois de conhecidos os resultados, o triunfo da continuidade permite maior clareza no caminho que o Brasil vai seguir, sendo que Lula terá todo o interesse, em nome do próprio interesse nacional, em corrigir algumas políticas destes quatro anos. Uma delas seria encontrar maior terreno de entendimento com os Estados Unidos, por muitas razões de queixa que tenha de Donald Trump, pois era manifesta a preferência do presidente americano pelo seu rival.

Recorro de novo a uma opinião recente comigo partilhada, neste caso por Antônio Ruy de Almeida Silva, almirante na reforma e Doutor em Relações Internacionais, que com base no que aconteceu nos dois últimos mandatos (este de Lula, e o de Jair Bolsonaro), defende um Brasil capaz de ser verdadeiramente independente, não procurando alinhamentos excessivos: “O Brasil é um país grande e tem a ideia de ter uma certa autonomia, tanto em relação à China, quanto em relação aos Estados Unidos. Alinhar com um dos dois seria extremamente ruim para o Brasil. Então, a política externa brasileira, na verdade, já passou por várias fases de aproximação com os Estados Unidos, mas isso não gerou para o Brasil nenhuma grande vantagem. Porque, para eles, independente de ser Donald Trump o presidente ou outro, não interessa que o Brasil se torne uma potência. Porque isso significaria uma potência no chamado quintal deles. Jair Bolsonaro quando foi presidente quis se alinhar com os Estados Unidos, mas o próprio agro brasileiro disse que não. Porque dependia da venda, hoje enorme, para a China. Então, é engraçado que os próprios conservadores disseram que não deveria se alinhar com os Estados Unidos, porque isso significaria que a China pudesse parar de comprar. Então, o que o Brasil precisa, na verdade, é navegar aí entre essas duas potências.”

Lula reagiu à vitória prometendo que vem aí “o melhor mandato da história”. Contestado por metade do país, com um Congresso hostil, e economia delicada, como escreve o correspondente do DN, João Almeida Moreira, esta é uma promessa arriscada, mas que se olharmos ao imenso potencial do Brasil até pode acontecer. Se for o melhor mandato de Lula será já excelente. No último ano da sua primeira passagem pela Presidência, 2010, o PIB cresceu 7,5%. Hoje, nem o mais dinâmico dos BRIC originais, a Índia, chega lá. Saberá o Brasil cumprir o seu potencial?

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