O PCP e a arte de se tornar irrelevante

Davide Amado

Presidente da Concelhia do PS de Lisboa

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Há partidos que envelhecem com dignidade. O PCP escolheu outra coisa.

A morte de Carlos Brito aos 93 anos merecia mais do que aquilo que recebeu. Anos na clandestinidade, resistência ao fascismo, líder parlamentar na Constituinte, desistência de uma candidatura presidencial para não dividir o campo democrático. O PCP respondeu com 28 palavras. Contaram-se. “Sem prejuízo das conhecidas diferenças e distanciamento político, registamos em Carlos Brito o seu percurso antifascista e a sua contribuição na Revolução de Abril.” Registamos. Como se fosse um recibo.

Paulo Raimundo achou que a defesa era dizer que o partido agira de forma “sóbria”. É uma palavra interessante. Sóbrio é o que se é num velório de um desconhecido. Para um homem que passou anos preso por causa do partido, talvez se esperasse outra coisa. Mas o PCP tem os seus critérios, e a lealdade de Brito ao longo de décadas pesou menos do que o facto de ter tido a imprudência de fazer perguntas. Foi isso o crime. Quis discutir se o marxismo-leninismo ainda fazia sentido depois da implosão soviética. Cunhal mandou-o ao Comité Central. O Comité Central suspendeu-o. Lição aprendida: no PCP, as perguntas certas fazem de alguém o inimigo errado.

Não partilhei nunca esta ideologia. Ainda assim, quando era estudante no ISCSP, fiz parte de um grupo que colocou uma placa na Associação de Estudantes em memória de Luís de Sá – militante comunista e professor universitário a quem docentes saudosistas tinham dificultado a carreira. Um democrata que só respeita os seus é apenas um sectário com melhor imagem. O PCP não aprendeu esta distinção. A prova mais recente veio de Lisboa.

O Grupo Municipal do PS apresentou uma recomendação com medidas de emergência para o custo de vida: transporte gratuito por três meses, isenção de rendas municipais, refeições escolares, apoio às famílias mais vulneráveis. Concreto, urgente, necessário, lógico, num momento em que o cabaz alimentar subiu quase 40% e os combustíveis chegam a valores que antes seriam considerados ficção científica. O PCP chumbou. Não havia argumento técnico que sustentasse a posição. Havia o PS do outro lado, e isso chegou. Este é o partido que ainda não perdoou aos socialistas terem preferido a democracia ao modelo soviético, e que punem essa escolha com a regularidade de quem tem memória longa e horizonte curto. Que Moedas continue a mandar em Lisboa é, ao que parece, preferível a votar com quem ousou ter outra visão da história. Seria apenas triste se não custasse dinheiro real a pessoas reais.

Carlos Brito percebeu tudo isto ainda em vida. Quis mudar o partido por dentro. O partido expulsou-o por dentro. Quando morreu, recebeu 28 palavras e a classificação póstuma de divergente. O município do Algarve onde faleceu decretou três dias de luto. A Assembleia da República aprovou um voto de pesar. O PCP “registou”. Dizem que um partido se conhece pela forma como trata os seus mortos. Se for verdade, os vivos do PCP têm razão em estar preocupados. Os eleitores, pelo menos, tiram as suas conclusões, e empurram o PCP para a irrelevância

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