Portugal sofre de uma profunda esquizofrenia estatística… e moral. E ainda que de tempos a tempos a dura realidade nos dê uma tareia sob a forma de números gélidos, pouco adianta, porque a reação do regime e daqueles que dele precisam para sobreviver é sempre a mesma: enfiar a cabeça na areia e rotular a plenos pulmões como “faxistas” (sim, com x e no X) ou “catastrofixtas” (idem) os poucos que ousam ler os factos como eles são. I.e., como factos.Só que a matemática não tem cartão de partido e o abismo obsceno entre a propaganda oficial de progresso e a asfixia diária dos cidadãos continua a alargar-se sem qualquer pudor.Os recentes dados do INE e do Eurostat são um soco no estômago da propaganda socialista da convergência – com a revisão da população, a nossa riqueza média por habitante afundou de 81% para uns tristes 76,2% da média da União Europeia e, feitas as contas, Portugal não está a aproximar-se da Europa desenvolvida, pelo contrário, despencou do 18.º para um humilhante 22.º lugar no ranking comunitário, ultrapassado pelos países de Leste. Para qualquer ser racional, é mais do que evidente que o suposto “crescimento económico” foi magia estatística, um embuste de volume que disfarça o empobrecimento real e sistemático dos portugueses face aos parceiros europeus. Mas não! É ouvir e ler os spins (alguns pagos, outros por pura convicção) na praça pública de que dividir os mesmos 100 por 50 ou por 60 na realidade até é possível dar mais para cada um!…É esta mesma oligarquia da opinião que fica silenciosa – ou com um sorriso de bonomia, mesmo, perante o mais recente exemplo de opacidade nas cúpulas do poder. Refiro-me ao caso da transparência patrimonial do Presidente da República, António José Seguro. Mas tem-se falado tão pouco nisso que o leitor talvez não se tenha apercebido?Os ativos financeiros declarados do chefe do Estado saltaram de uns remediados (à escala europeia) 188 mil euros em dezembro para uns já faustosos 1,2 milhões após as eleições. Assim, um milhão de euros apareceu… E gerou-se a histeria coletiva que vimos no arranque do Caso Spinumviva, de Luís Montenegro, por acaso? Não. A intelligentia comentadeira apressou-se a arquivar o assunto com um dócil “está tudo explicado”, ecoando as palavras do senhor Presidente, não fôssemos agora ir à procura de chatices. Essas normalmente são vistas à lupa é noutras paragens políticas.Para coroar estes dias em que temos de falar de contas que não têm a ver com o futebol – a única área em que os portugueses conseguem ser ases em cálculos combinatórios quando é preciso – fomos brindados com a notícia de que o Estado foi condenado a pagar 15 mil euros de indemnização a José Sócrates por violação do segredo de justiça. Afinal, a sabedoria cínica do povo tinha mesmo razão quando dizia: “Ainda lhe vamos todos pagar!”Este pequeno prémio, sacado diretamente do bolso dos contribuintes, poderá poupar o antigo primeiro-ministro a ir pedir mais algum empréstimo ao “amigo” ou, quem sabe, permite-lhe repor algum troco no infindável cofre da mãe. Porque, afinal, rir de escárnio é a vacina que nos resta perante uma Justiça lenta e, como sempre, impotente perante quem arranja dinheiro para protelar.Tudo somado, literalmente, é uma mensagem muito nítida, em especial para os mais jovens, de um niilismo absoluto: sobreviver num país que odeia o mérito, esconde a bancarrota social e premeia os suspeitos do costume é a receita perfeita para o êxodo. Por alguma razão, desde 2017 que não emigravam tantos jovens. São os que sabem ler os rankings europeus e percebem que o garrote fiscal que sofrem só serve para engordar um Estado parasitário, que protege os seus comparsas, e vão-se embora.Quanto aos velhos que cá ficam – e os mais novos que teimam em não ir, mais os outros que entram porque nos seus países, coitados, ainda é pior… Ao continuarmos a ignorar os números e a bater palmas aos ilusionistas, só perpetuamos um Portugal falhado, um país que não soma, só subtrai, um embuste sem futuro.