O parque de diversões

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Há uma fotografia que circulou recentemente nas redes sociais e que vale mais do que qualquer relatório de sustentabilidade turística: um grupo de turistas, smartphone em riste, a fotografar obsessivamente uma porta de azulejos em Alfama, indiferentes à senhora idosa que tentava, paciente e invisível, entrar no prédio onde vive há cinquenta anos. Os turistas não eram maus. A senhora não estava furiosa. Era apenas o novo normal.

Portugal descobriu, tarde e com demasiado entusiasmo, que era bonito. A partir daí, fez o que os países inseguros fazem quando são elogiados: exagerou. Multiplicaram-se os voos de baixo custo, proliferaram os alojamentos locais onde havia casas, ergueram-se hotéis onde havia bairros, e vendeu-se a autenticidade com a eficiência industrial de quem sabe que a autenticidade, uma vez embalada e rotulada, deixa de o ser – e mais vale, portanto, vendê-la muito e depressa.

O fenómeno não é novo nem exclusivo. Bali, que durante décadas fascinou viajantes pela sua espiritualidade e pela sua vida comunitária genuína, transformou-se progressivamente numa cenografia de si mesma. Os rituais existem, mas encenados; os artesãos produzem, mas para o mercado de souvenirs; os templos recebem visitas, mas com preço de entrada. O turista que chega hoje à procura da Bali que leu nalgum livro dos anos noventa encontra uma versão decorativa e algo melancólica dessa memória. Veneza é um caso de escola diferente: uma cidade que caminha para se tornar apenas museu, onde o número de residentes permanentes desceu de 175 mil nos anos sessenta para menos de 50 mil hoje, expulsos lentamente por rendas que só o turismo pode pagar. Barcelona resistiu mais, mas não o suficiente. O Bairro Gótico é hoje uma galeria comercial de fachada histórica e os moradores que ainda lá vivem coexistem com multidões que transformam cada rua num corredor de aeroporto. Dubrovnik, a pérola do Adriático, chegou a receber doze mil visitantes por dia numa cidade que tem oito mil habitantes. A matemática não deixa margem para ilusões.

Em Lisboa, o processo foi acelerado pela sobreposição de duas crises. A crise financeira de 2011 empurrou proprietários para o alojamento local como estratégia de sobrevivência económica. A pandemia interrompeu-o brevemente. Mas a lógica voltou, mais intensa. O resultado é conhecido: bairros históricos como Alfama, Mouraria ou Bica perderam população residente a uma velocidade que nenhuma política habitacional conseguiu ainda travar. O alojamento local absorveu imóveis que seriam habitação permanente; os fundos de investimento imobiliário fizeram o resto. Quem trabalha em Lisboa, mas não pode pagar uma renda em Lisboa ou nos arredores, enfrenta uma equação sem solução local. A cidade que se vende como destino autêntico expulsa, sistematicamente, os protagonistas dessa autenticidade.

Existe uma ironia cruel neste processo que merece ser dita com clareza: o turista que chega a Lisboa à procura de vida real, de bairros vivos, das tascas e cafés com gente de cá, encontrará cada vez menos disso. Encontrará, em contrapartida, menus em seis idiomas, filas intermináveis para entrar nos Pastéis de Belém e nos Jerónimos, e hostels com decoração de azulejo sintético. O sucesso do produto destrói o produto. É uma lógica que qualquer economista reconheceria imediatamente, mas que as políticas de turismo nacionais parecem incapazes de interiorizar, talvez porque os números de chegadas e receitas são mais fáceis de fotografar do que a degradação silenciosa de uma cidade que perde os seus habitantes e cujo quotidiano se torna insuportável pela pressão de gente que legitimamente a quer conhecer.

A discussão sobre limites ao turismo suscita sempre a objeção económica: o sector representa uma fatia considerável do PIB, emprega centenas de milhares de pessoas, sustenta regiões inteiras. É verdade. Mas a mesma lógica aplicada sem moderação destrói, a prazo, a base sobre a qual assenta. Um parque de diversões artificial não precisa de habitantes reais, de história viva, de bairros com cheiro a comida a sair pelas janelas. Precisa apenas de cenários convincentes e de pessoal de serviço. É isso que Portugal quer ser?

A redução controlada do turismo de massas, combinada com políticas que valorizem estadias mais longas, menor rotatividade e maior gasto por visitante, não é uma proposta nostálgica nem economicamente suicida. É, pelo contrário, a única forma de garantir que o que se vende agora daqui a vinte anos ainda valha alguma coisa. Mais voos e mais hotéis num espaço geograficamente finito não multiplicam a experiência. Diluem-na, até que não reste já nada para diluir.

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